Era uma noite amena em Houston. Os donos da casa, embalados por uma sucessão de temporadas com grandes vitórias, incluindo o primeiro título de World Series de sua história, entravam em campo preparados para mudar o conto de fadas que se apresentava. Liderados por José Altuve, o time do estado da estrela solitária se baseava em sua constelação para chegar novamente ao topo do universo. O cosmos, porém, tinha em mente algo bem mais singular. Afinal, como já falamos, essa terra tem lema, alcunha e apelido, e se orgulha dele: “The Lonely Star State”. E seria uma única estrela que triunfaria naquela quarta-feira em novembro. E como todo corpo celeste que se preze, esse homem carrega às costas, no próprio nome, a liberdade que pertence aos astros. 

Freddie Freeman chegou aos Braves via Draft em 2007. Em 2010 ele foi promovido ao elenco das Majors Leagues, se tornando titular em 2011. Segundo mais votado ao prêmio de Rookie of The Year da Liga Nacional, atrás do então-companheiro Craig Kimbrel, o first-baseman já começou a carreira pegando fogo, como um cometa quando entra em contato com a atmosfera. É digno de nota que 2011 marcaria também a segunda vez que dois jogadores dos Braves estariam juntos no top 5 do prêmio de melhor jogador calouro do ano. A outra? 1954, com Hank Aaron terminando em quarto lugar. O maior ídolo da história da franquia, de certa forma, passava seu bastão a Freeman. E Hank Aaron ainda teria grande significância no jogo de novembro do ano passado, citado no começo do texto. Freddie continuou sua carreira em Atlanta, acumulando números, ganhando notoriedade e o coração de todo o estado da Georgia. Cinco vezes escolhido para o All-Star, Silver Slugger em três oportunidades, uma Gold Glove e a consagração de ser eleito MVP da National League em 2020. Porém, apesar desses números fantásticos, algo lhe faltava. Foi então que raiou no horizonte o ano de 2021, trazendo luz e uma nova aurora para Fulton County. E convenhamos que não há estrela mais cintilante que o próprio sol, não é? 

Contudo, em meio ao radiante sol, veio um baque de proporções de chuvas diluvianas. Uma das estrelas mais brilhantes da história dos Braves havia se apagado. Hank Aaron falecia em casa, dormindo, aos 86 anos. O #44 que ele havia eternizado foi gravado no campo do Truist Park como forma de lembrar ao time, aos torcedores, e a todos os amantes do baseball o legado do segundo maior rebatedor de home runs de todos os tempos. Recaiu sobre o elenco atual o peso de lidar com uma cidade e uma nação de torcedores em luto, sedentos por uma despedida do ídolo em alto estilo. E essa relação ia além da camisa e da logo da franquia. Hank Aaron trabalhou diretamente com o atual manager dos Braves, Brian Snitker, nas farms de Atlanta. Mais que isso: foi o próprio Aaron que contratou Snitker quatro décadas atrás. A relação dos dois era de uma amizade e admiração enormes, e é fácil entender o quanto a partida repentina e inesperada do maior atleta do time em todos os tempos afetou o elenco. Como em uma supernova, a luz da maior estrela em Atlanta se apagou, e era necessário um renascimento no condado de Fulton. E esse renascimento passava diretamente por uma estrela em franco processo de crescimento e agigantamento. Atlanta precisava de um super-herói para chamar de seu.

E esse herói apareceu, em meio às águas revoltas. No jogo 4 da série contra o Milwaukee Brewers, time que Hank Aaron encerrou sua carreira e cidade que ele amou por tantas décadas, Freddie bateu um home run contra um dos melhores closers da liga, Josh Hader, na oitava entrada. Esse home run valeria não só a vitória por 5×4, mas também a passagem para o NLDS. No jogo 6 da Série Mundial, Freeman mais uma vez colocou seu nome no Box Score. RBI double na quinta entrada e home run no sétimo inning na vitória contundente por 7×0. E na última estocada de Houston, na nona entrada, com dois outs, a eliminação do título foi parar exatamente na luva de Freddie. A bolinha da consagração máxima do baseball mundial dormia aconchegada nas mãos de Super Freddie. 

Diga-se de passagem, a relação de heroísmo do first baseman não é por acaso. Seu nome estampa as páginas de um arco da DC Comics desde o ínicio dos anos 40. Contudo, o Freddy Freeman da DC Comics é um personagem que ao longo do tempo fez parte de diversas equipes, tais como Jovens Titãs e Família Shazan. Já o herói de Atlanta nunca havia passado tempo fora da organização que o selecionou no recrutamento. Bom, nunca até 2022. Freeman seria free agent após o fim da temporada de 2021, e tanto a torcida, quanto os companheiros pediam incessantemente para que o staff dos Braves renovasse seu contrato. Não aconteceu. Torcedor de infância dos Dodgers, Freddie rumou para a costa oeste a fim de jogar com a camisa do time do coração. Para Duncan Mateer, entrevistado durante a produção deste texto, o cenário foi de um amor que chegou ao fim, deixando uma das partes de coração partido. Ele ainda acrescenta que os Braves lhe ofereceram um contrato até melhor que o Dodgers lhe deu, mas a vontade do jogador era jogar na franquia da California.

 “You lose the face of your team, one of the best hitters to play for the Braves in years, and he doesn’t even leave for contract reasons… The Braves offered him more money than the Dodgers per year. I guess sometimes love can’t last forever. It’s heart breaking, for sure, it does hurt” – Duncan Mateer

O fato é que a era dos heróis chegava ao seu fim em Atlanta, e um casamento era rompido de forma traumática para a parte que estava sendo deixada. Um novo namoro se iniciou na Georgia quando Matt Olson saiu de Oakland e rumou para o Truist Park, assumindo a vaga deixada por Freddie na primeira base. É claro que apenas o futuro pode dizer se essa relação ficará estremecida ou se o amor e o respeito mútuo imperarão. De toda forma, o que fica na história é o brilho intenso causado por uma grande estrela, que se refletiu em um outro brilho, esse eterno e imutável, pintado em cores douradas e prateadas: o do troféu de campeão da maior liga de baseball do universo.

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA