Estamos em 2020 e cada vez mais em todos os esportes americanos pode se encontrar o crescimento de analytics. Com uma abundância de dados, cresce cada vez mais o questionamento sobre certas máximas: não se vê mais tantos bunts e roubos de base no baseball; o mid-range game é quase uma arte perdida; e por aí vai.

Nesse sentido, na NFL não é diferente. Head Coaches por todos os lados estão arriscando como nunca, tanto em jogadas de quarta descida quanto em conversões de dois pontos.

O início

Mas, antes de mais nada, existe um momento bem chave na história da NFL que realmente botou esse debate em evidência. Ali, não foi a primeira vez que um HC arriscou tudo, mas devido ao jogo em questão, os personagens envolvidos e o momento em si, não tem como deixar de falar do duelo entre Patriots e Colts, em 2009.

New England, que por um momento liderava esse jogo por 17 já no quarto período, se encontrava apenas 6 pontos na frente com 2:08 restando no relógio numa quarta para 2 na linha de 28 jardas do seu campo de defesa. Naquele momento, Bill Belichick chocou a todos quando deixou Tom Brady em campo e arriscou em busca de um first down e a vitória.

Kenny Faulk recebeu um passe curto e num spot bem questionável o juiz marcou NE short e a bola voltou pra Indy. Portanto, com um campo curto Peyton Manning rapidamente conseguiu o TD e deu a vitória para o Colts. Mesmo sendo Belichick, a crítica sobre essa decisão foi enorme e veio de todos os lados, inclusive de ex-jogadores de NE, como Teddy Bruschi e Rodney Harrison.

Na entrevista pós-jogo, Belichick disse que na sua visão aquela escolha dava a New England a melhor chance de vencer, e é muito fácil entender o por quê dessa decisão, basta apenas se colocar na pele de Peyton Manning vendo da sideline esse momento. Qualquer um pode garantir que ele não comemorou, quando viu o ataque do Patriots no campo.

Sim, a decisão deu errado e o Patriots perdeu, mas quem garante que a sua defesa conteria Peyton Manning e cia quando, naquele momento, o mesmo parecia imparável? Lembrando, ainda, que a vantagem no quarto período já tinha sido de 17.

Sem gastar muito tempo nesse momento do passado, mas com isso em mente seguimos para alguns momentos dessas duas últimas semanas que foram bastante interessantes.

Minnessota Vikings x Seattle Seahawks

Primeiro, a mais discutível decisão. No Sunday Night Football da Semana 5, o Minnessota Vikings, com campanha 1-3, viajou longe para enfrentar Russel Wilson e o invicto Seattle Seahawks.

O relógio tinha acabado de parar devido ao two minute warning. O placar era de 26×21 a favor dos visitantes, que tinham a bola na linha de nove jardas do campo de ataque numa quarta pra 1. Além disso, só para adicionar um certo contexto, Minnessota havia avançado 15 jardas pelo chão nas duas últimas jogadas, mesmo sem Dalvin Cook, transformando uma segunda pra 16 em quarta para 1.

– Minnessota tinha duas escolhas:

1: chutar o FG  e abrir 8 pontos de vantagem, garantindo que não perderia o jogo nos 60 minutos, e forçando Russel Wilson a levar Seattle da sua linha de 25 jardas até a end zone precisando do TD e da conversão de dois pontos para apenas empatar a partida.

2: arriscar a quarta descida, sabendo que o êxito praticamente garante a sua vitória. Entretanto, o fracasso dá para Wilson e cia a chance de vencer o jogo com um TD, mas tendo que viajar 91 jardas para o consegui-lo.

Esta é uma das decisões mais difíceis dos últimos tempos. Um FG deixa Seattle em uma posição delicada, mas não traz segurança. Isso porque, 75 jardas em um minuto e 50 com um timeout pra conseguir um TD e uma conversão… isso, com Russel Wilson, é viável.

Minnessota arrisca a quarta descida, não converte, e a falha dá a Seattle a chance de vencer viajando 91 jardas pra anotar um TD. E isso acontece.

Mas, o motivo pelo qual não se pode culpar Mike Zimmer por ter arriscado é que mesmo com Mattison tendo a maioria das corridas, o Vikings corria à vontade até aquele momento com 201 jardas pelo chão em 40 tentativas. Mattison tinha 112 em 20 tentativas sendo que a sua corrida mais longa era de 25 jardas. Além disso, por último e talvez mais importante, Minnessota já havia conseguido conversões em duas quartas descidas curtas.

Olhando para todo o contexto, a tentativa na quarta descida foi uma decisão bem justificável.

Houston Texans x Tennessee Titans

O Houston Texans, com uma vitória e quatro derrotas, foi para Nashville enfrentar o invicto Tennessee Titans. E algo notável aconteceu nos minutos finais desse confronto.

Vencendo por 30-29, Houston tinha a bola na linha de uma jarda e era quarta descida, um FG o daria uma vantagem de 4 pontos. Mas, em um jogo aonde sua defesa acabou cedendo 607 jardas, qual seria o nível de confiança para não cederem um TD? Inexistente.

Por isso, o seu HC Romeo Crennell decidiu arriscar e, com bastante frieza, Deshaun Watson achou Brandin Cooks na end zone, mesmo sofrendo uma blitz da defesa de Tennessee. Entretanto, o ataque de Houston não tinha acabado o serviço; seu HC decidiu ir além.

– Com a vantagem de 7 pontos já garantida, Houston tinha duas opções:

1: fazer o convencional, chutando o extra point e, assim, forçando o Titans a não só anotar um TD, mas também converter os dois pontos para então forçarem uma possível prorrogação.

2: arriscar os dois pontos sabendo que o sucesso garante a vitória, aumentando a diferença para nove pontos. Ou seja duas posses, sabendo que em caso de fracasso, o Titans pode empatar o jogo com um TD e o ponto extra.

A pergunta a se fazer neste momento é bem simples. Esqueça a vantagem e pense: você, HC de Houston, confia mais no seu ataque liderado por Deshaun Watson ou na sua defesa liderada por JJ Watt em uma conversão de dois pontos? Apenas o fato do jogo ser um shootout já lhe entrega a resposta. Portanto, ali, arriscar foi sim a escolha certa.

Sim, Houston perdeu, a conversão não funcionou, mas esquecemos que o recebedor estava aberto e por pouco não deu certo. Após aquele momento, Tennessee de forma categórica cruzou o campo em duas campanhas consecutivas e anotou dois touchdowns, o que indica que não conseguiriam duas míseras jardas em uma situação decisiva.

Você joga nas suas forças e na fraqueza do seu adversário. Foi isso que Houston fez e foi a decisão certa, ainda mais numa situação aonde o risco era minimizado, já que não perdeu o jogo ali e sim na prorrogação.

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