Correr pela glória, pela recuperação, pelo milagre. Até que arrancaram o sonho do Browns a metros de acontecer
Os Kardiac Kids dos anos 80 recebeu o mesmo hype que o Browns de 2019 está recebendo. O hype era real desse time

Não acredito que ainda não tinha visto o “30 for 30 Believeland” da ESPN, documentário sobre tudo que as franquias de Cleveland passaram. Os mais tenebrosos lances que decidiram perdas enormes, o pessimismo que se cria, a paixão, esperança e pesadelos que esses torcedores passaram. Não acredito que nunca falei necessariamente em texto sobre tudo que a cidade passou, eu precisava do documentário da ESPN a entender mais ainda o que se passou, e relaciono muito do que aconteceu ao longo dos tempos com o ano de 2019 em Cleveland e tentarei trazer pensamentos e história para todos.

Cleveland a partir do fim dos anos 60 começava a encarar uma nova realidade, a cidade perdia espaço turístico no país, economicamente começa a ter uma regressão e olhava para Pittsburgh um rival onde teve um processo inverso para iniciar a década de 70. Um time de alto nível, ganhos de divisão conferência e 4 Super Bowls na década, ao mesmo tempo que a cidade virava uma grande produtora de empregos no país, e crescia drasticamente financeiramente. Após essa comparação de cenários, Cleveland viria para uma nova realidade esportiva começando na década de 80. Os Kardiac Kids (apelido muito por causa do elenco jovem e jogos decididos nos minutos finais onde ficou as “crianças cardíacas” onde pra ter uma referência, quando Galvão Bueno cita seu bordão “é teste pra cardíaco” dá pra entender mais do apelido. Todo jogo parecia teste pra cardíaco.

Antes do início dos Kardiac Kids no meio da década, em 1980 tivemos o primeiro grande episódio onde uma falha ficou famosa, naquele dia por parte do QB Brian Sipe. Num frio aniquilante em Cleveland chegando a 4 graus durante o jogo, Browns tinha o primeiro grande time pós época de Jim Brown, chegando a divisional round favorito. Estava 14 a 12 para o Raiders, ataque do Browns continuava elétrico, a menos de um minuto chegava na linha de 14 jardas apenas precisando de um Field Goal para ganhar o jogo. Newsome era o grande alvo, Cleveland escolheu continuar tentando o Touchdown sabendo que se não conseguisse em 2 jogadas no máximo iria chutar, Sipe teve um pocket limpo, viu Newsome se completando sua rota e lançou, uma bola fraca, balançando pelo vento e sobrou nas mãos de Mike Davis. Cleveland tinha seu primeiro episódio desastroso conhecido como “Red Right 88”. Mas a empolgação continuava.

Kosar era o que faltava pra esse elenco com potencial. Desde o Draft o hype era muito real com ele

1985 e a maior empolgação do século em Cleveland começa a acontecer, Sipe já era uma grande QB, se mudou para o Giants em NY ao fim da temporada em 83, a situação no século 21 na posição foi uma procura maior mas comparamos a chegada de Bernie Kosar com a de Baker Mayfield ano passado. Era um grupo com potencial enorme, a empolgação por pick No.1 em Kosar era enorme, o falatório vindo da imprensa a torcedores colocava playoffs e Super Bowl em suas bocas. Mayfield não chegou nos playoffs no seu ano de calouro, Kosar também não, mas falamos já de playoffs para o Browns em 2019 e Kosar alavancou o Browns a nível de offseason no seu segundo ano.

Final da AFC em 1986, Browns mais perto do Super Bowl do que em 1980, uma temporada com ares de time campeão c Kosar chegando às 4 mil jardas lançadas, uma quebra de 15 derrotas seguidas para o Steelers com vitória em pleno Three Rivers Stadium é um jogo histórico no divisonal round contra o Jets onde valia mais ainda o apelido de Kardiac Kids, vencendo na prorrogação com atuação de gala do Kosar completando 33 de 64 passes para 489 jardas. Contra o Broncos na final de conferência liderança por uma posse e um Punt gigantesco que colocou o Browns na linha de 2 JARDAS da defesa com 5:32 no relógio para atravessar todo o campo. Uma das maiores apresentações de um QB e um ataque em tão pouco tempo com toda a distância pra RedZone e pressão por trás da campanha. Encaramos John Elway em sua melhor versão, um nascimento de uma lenda, da gíria “clutch”, foram 15 jogadas, ao fim do passe de Elway para Mark Jackson que levava o jogo para prorrogação. Na OT Rich Karliss fazia um FG de 33 jardas e levava a vitória e Super Bowl para Denver. Clima de enterro, o Touchdown de Kosar a 6 minutos levaria um ar de esperança e sensação de agora iremos para o Super Bowl, mas a empolgação de jogadores e torcida ainda estava acesa e pegando fogo para o próximo ano. O destino é tão engraçado que na temporada seguinte, final da AFC e novamente Browns x Broncos na disputa.

Foi um primeiro tempo terrível, a chegada do intervalo o Browns perdia por 21-3 e ao fim do terceiro período por 28-10. Parecia ser menos terrível a derrota mas novamente a eliminação no último passo ao Super Bowl mas se criou a reviravolta chamada Bernie Kosar. Foi inacreditável como ele administrou e deixou o ataque elétrico no segundo tempo, completou 16 de 22 passes para 246 jardas, no jogo total passou das 350 jardas, conseguindo recuperar o resultado e empatar a partida em 31-31 a pouco mais de 10 minutos de jogo.

Elway e o Broncos anotaram um TD e novamente ficaram a frente no placar, Browns teriam a chance de devolver o mesmo cenário que o Broncos teve na temporada passada, teria a posse final do jogo para empatar e levar para a prorrogação, agora com 3:53 no relógio mas iniciando da linha de 25 jardas da defesa. Durante a campanha, Earnest Byner teve o papel principal, o RB foi essencial em sua versatilidade correndo e recebendo passes, o alvo mais usado por Kosar nos minutos finais. “13 Trap” era o nome da jogada, na linha de 8 jardas seria mais uma vez acionado, Byner iria correr por fora da trincheira, a jogada funcionou ele já estava na linha de 3 jardas a passos da EndZone quando Jeremiah Castille se jogou e arrancou a bola das mãos de Byner.

Correr pela glória, pela recuperação, pelo milagre. Até que arrancaram o sonho do Browns a metros de acontecer

Um vazio, diferente da derrota na primeira final a empolgação pra se recuperar parece ter afundado, o lance foi desgastante demais, o jeito que aconteceu, o roubo da bola das mãos do Byner, o sonho se cair em pedaços após estar correndo para a glória e chegar alguém e tirar isso da cidade. No documentário Arsênio Hall que nasceu em Cleveland resume muito bem tudo: “tem coisas que são impossíveis de acontecer em qualquer lugar do mundo, mas em Cleveland vira algo normal de acontecer”. Está enraizado em Cleveland isso, o Browns de 2019 tem a mesma empolgação daquele Browns dos anos 80 e não estou zicando mas sim relacionando, antes que venha me críticar não será meu texto que fará tudo desabar essa temporada mas relaciono a idéia que o esporte pode ser cruel em seu pior nível. Após esses fatídicos lances e eliminações, Kosar e o Browns nunca mais chegou na final de conferência, as oportunidades passaram e escaparam. Esporte não tem paciência para sequência de erros.

Byner disse que foi destruído, a alma estava desgastada, ao falar disso 28 anos depois ao final, não segurou as lágrimas, o lance pesa, o lance ainda dói, o Browns de hoje em dia tem algo a mais além de buscar o título: buscar o tampão das cicatrizes, curar as feridas. LeBron provocou mais ainda uma ferida no “The Decision” escolhendo ir para Miami e lá ganhando títulos, Cavs que já vinham em uma seca e encarando o “The Shot”, lance muito conhecido em um At The Buzzer do maior de todos os tempos, Michael Jordan, eliminar as chances de título. Mas que ele e o Cavs retiraram toda essa dor ao vencer a NBA Finals de 2017. Indians procuram isso, curar a maior seca na liga, curar as derrotas em World Series em lances fatídicos também na década de 90 e em 2016. O Browns tem o mesmo objetivo a traçar, com um pouco mais de peso que as outras franquias da cidade.

Todos deveriam assistir este documentário, entender o que significa o esporte em Cleveland, entender o porquê todos falam do sofrimento do torcedor. O hype é real no Browns de 2019, o time foi projetado a isso e fez em Mayfield o complemento da empolgação. Um time com ego forte, talentoso e jovem. Pode ser os Kardiac Kids que foram campeões!

Carregar o peso de conseguir resultados, recuperar a esperança da cidade no time, algo que não tinha acontecido com este nível de hype na década. Este é o peso que carrega Baker Mayfield

 

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