The Comeback
Faltam 45 dias para a 100ª temporada da NFL e hoje relembramos mais uma grande história da liga: o jogo que ficou marcado como a maior virada de todos os tempos na Liga! Acesse fumblenanet.com.br/nfl100 para conferir outras histórias épicas!

 

No dia 3 de janeiro de 1993 foi escrito um dos capítulos mais marcantes da história da NFL. O Buffalo Bills recebeu o Houston Oilers para uma das partidas da rodada de Wild Card dos Playoffs da temporada 1992-1993. O jogo, que aconteceu no Rich Stadium, hoje New Era Stadium, ficou conhecido como The Comeback e considerado a maior virada da história da NFL. A diferença de pontuação é, até hoje, a maior que um time conseguiu virar na história da Liga.

Imagine-se trinta e dois pontas atrás do placar com pouco menos de dois quartos de jogo por vir. Sem seu quarterback titular, Jim Kelly, durante o jogo deixando o reserva, Frank Reich, com a missão de atenuar a derrota. A última coisa esperada no jogo era uma virada, especialmente com seu QB reserva no comando. Entretanto, podemos dizer que Reich já tinha “experiência” com viradas estonteantes como um reserva.

 

Captain Comeback

Foto: RVR Photos/USA TODAY Sports

Ainda no College, quando fazia parte do Maryland Terrapins, Frank Reich já estava acostumado com a condição de reserva. Da mesma forma, já estava predestinado a protagonizar viradas históricas. Em Novembro de 1984 o Frank substituiu Stan Gelbaugh como QB dos Terrapins e liderou uma virada contra o Miami Hurricanes em pleno Orange Bowl. Depois de começar o jogo perdendo por 31-0 no intervalo, o time de Maryland conseguiu se superar e reverter o placar num 42-40, ganhando o jogo. O Captain Comeback lançou seis touchdowns no segundo tempo, estabelecendo o que foi, até 2006, a maior virada na história do College Football, quando Michigan State se recuperou de um déficit de 38 pontos contra Northwestern.

 

As temporadas dos times

Ambos times fizeram campanhas insuficientes para ganhar a divisão. O Buffalo Bills foi o segundo colocado na AFC East, atrás apenas do Miami Dolphins que ganhou a divisão mesmo com recorde igual ao do Bills, de 11 vitórias e 5 derrotas. Comandados por Marv Levy alcançaram a terceira melhor marca em pontos na liga e a segunda melhor marca em jardas totais. Outra importante marca foi o jogo corrido do time: 2436 jardas terrestres foram o suficiente para se estabelecer como o time que mais correu na liga em termos de jardas conquistadas, sendo liderados por Thurman Thomas. O ataque era liderado por ninguém mais ninguém menos que Jim Kelly, eleito para o Pro Bowl. Além de Kelly, outros seis jogadores foram selecionados para o jogo das estrelas.

Já o Houston Oilers terminou a temporada também com 10 vitórias e 6 derrotas sob o comando de Jack Pardee, em segundo lugar na AFC Central, com uma vitória a menos que o Pittsburgh Steelers. Durante a temporada equilíbrio entre defesa e ataque: foi ranqueado como terceiro melhor ataque em jardas totais conquistadas e terceira melhor defesa quanto a jardas cedidas. Teve também o melhor ataque aéreo da liga, com a melhor marca em jardas passadas e a terceira melhor em touchdowns passados. Um dos responsáveis pelo ataque foi Warren Moon, eleito para o Pro Bowl na temporada junto a três de seus WRs. Num total, nove Oilers foram selecionados, incluindo jogadores de defesa e de ataque.

 

O jogo

 

Primeiro tempo

Foto: John Biever/Sports Illustrated

O primeiro quarto de jogo não foi muito movimentado quando comparado a outros durante o jogo. Os Oilers saíram na frente do placar, anotando um touchdown com passe de Warren Moon para Haywood Jeffires. Já com o QB reserva em campo os Bills não conseguiram responder a altura, anotando apenas um chute de três pontos com Steve Christie, num FG de 36 jardas. A partir daí o restante do primeiro tempo foi basicamente um monólogo dos Oilers. Sem deixar a bola nas mãos do poderoso ataque dos Bills, o time de Houston anotou mais três touchdowns por meio de passes de Moon. Webster Slaughter, Curtis Duncan e, mais uma vez Jeffires, foram os responsáveis por receber as bolas lançadas e somar mais 18 pontos para o time visitante. Al Del Greco, então o kicker dos Oilers, não desperdiçou um chute sequer, garantindo uma vantagem de 25 pontos no intervalo.

Warren Moon teve atuação exemplar no primeiro tempo, completando 19 passes de 22 tentativas, para um total de 218 jardas. Os drives dos Oilers sufocaram os Bills, com quatro touchdowns passados. Os pouco mais de 21 minutos com a bola para os visitantes foram refletidos em domínio no campo e no placar. O primeiro drive do jogo gerou pontuação e teve duração total de nove minutos.

Posteriormente ao jogo, Ernest Givins, ex-WR dos Oilers disse que “nunca viu o time tão efetivo, tão eficiente”. Não era mistério para ninguém, o então LB de Bufflalo Darryl Talley disse que “Warren foi para o jogo atirando dardos. Ele era como um cirurgião naquele dia”. O jogador ainda acrescentou que desde o começo do jogo parecia que seu time era empurrado para o próprio campo defensivo. Os Oilers usavam screens, draws e não havia nada que eles poderiam fazer, aparentemente. A única coisa que podia pensar era como o time conseguiria tornar a situação menos vergonhosa.

 

O intervalo e a mudança no curso do jogo

Foto: Pro Football Hall of Fame

Walt Corey, então coordenador defensivo dos Bills, destacou que os jogadores pareciam tímidos quando saíram para os vestiários no intervalo do jogo. Para ele, o jogo era baseado na atitude dos jogadores em campo e as vezes você pode ter medo de fazer as coisas acontecerem, ou até mesmo medo de errar. O mais importante no momento era fazer os jogadores mudarem a sua atitude, fazê-los entrar em campo “pegando fogo”. O head coach, Marv Levy, também conversou com o time, ressaltando que haviam apenas 30 minutos restantes no jogo, que poderiam ser os últimos da temporada.

Warren Moon, QB dos Oilers e hoje no Hall da Fama da NFL, disse que havia um ar de confiança no vestiário, talvez até um excesso. Ainda que os jogadores não estavam gargalhando e contando com a vitória, um clima de conforto prevaleceu, o que não poderia acontecer. O QB e líder do time relembrou aos jogadores a derrota contra o Denver Broncos nos playoffs da temporada anterior, quando o time desperdiçou uma liderança de 15 pontos. Relaxar não era uma opção para Moon, especialmente por ter vivido o que viveu na temporada anterior.

Naquele momento, o único que parecia acreditar numa virada era o terceiro quarterback dos Bills: Gale Gilbert. O jogador fez questão de dizer a Reich que ele era capaz de levar o time a uma virada. “Você fez isso no College, não há razão para que você não possa fazer aqui”, lembrou Gale.

 

Segundo tempo

Foto: John Biever/Sports Illustrated

O retorno para o segundo tempo não foi exatamente animador para os Bills. Logo no começo do terceiro quarto um passe de Keith McKeller não segurou passe de Frank Reich. Bubba McDowell interceptou a bola com retorno para touchdown. Novamente com a posse da bola, os Bills começaram uma campanha já no meio de campo, que após 10 jogadas resultou num touchdown. A insanidade começou: ainda muito atrás do placar a alternativa encontrada foi um onside kick. Steve Christie recuperou o próprio chute e deu a oportunidade ao time de diminuir a vantagem adversária.

Em mais um drive curto, Don Beebe recebeu passe de Reich e a vantagem diminuiu mais sete pontos. Esse foi um dos momentos marcantes do jogo, mas fora de campo. Torcedores que haviam deixado o Rich Stadium retornaram ao jogo escalando e pulando as grades do estádio, uma vez que os ingressos não permitiam a saída e retorno ao evento. Os seguranças até tentaram impedir a entrada durante um tempo, mas desistiram após perceber que os torcedores insistiriam na entrada.

Foto: John Biever/Sports Illustrated

Pela primeira vez no jogo os Oilers foram obrigados a chutar um punt, que resultou num retorno colocado os Bills em uma boa posição de campo novamente. Com um touchdown recebido por Andre Reed a vantagem diminuiu para um total de 11 pontos. Naquele momento, quem parecia imparável era o Bills, colocando em prática o ataque avassalador que todos esperavam. Logo na primeira jogada de Houston Warren Moon foi interceptado por Henry Jones, retornando até a linha de 23 jardas do campo de ataque. Um dos momentos de maior importância do jogo aconteceu nesse drive. Na linha de 18 jardas do campo de ataque os Bills precisavam converter uma quarta descida para cinco jardas. Mas o field goal não era o bastante para um ataque que estava a todo vapor. Reich conectou um passe para Andre Reed, que avançou para o touchdown.

Foto: John Biever/Sports Illustrated

Após seis minutos e 52 segundos a diferença que era de 32 pontos caiu para apenas quatro. Moon, que havia feito um jogo quase perfeito no primeiro tempo, foi limitado a dois passes para 19 jardas. Após algumas trocas de posse os Oilers tentaram aumentar a vantagem com um field goal, mas um fumble no snap deu a bola de volta aos Bills. Com um drive que terminou com outro touchdown para Andre Reed os Bills lideraram o placar pela primeira vez no jogo. A seguir, os Oilers empataram o placar com um field goal de 26 jardas, levando o jogo para o overtime.

 

Overtime e pós-jogo

Foto: John Biever/Sports Illustrated

Ritcher, guard dos Bills naquele jogo, revela que após o chute de empate dos Oilers levando o jogo para a prorrogação, apenas poderia orar. Conta que estava apreensivo com o momento e pensou “bom, Senhor, você nos deixou chegar até aqui. Certamente você não vai nos deixar perder agora, vai?”. O Houston Oilers ganhou a primeira posse da prorrogação no coin toss. Quando tentou seu 50º passe do jogo Moon foi interceptado por Nate Odomes, que sofreu falta (facemask) e deixou os Bills em excelente situação para ganhar o jogo. Depois de duas corridas com Davis os Bills chutaram o field goal que decretou a vitória por 41-38 e a maior virada da história da Liga.

Enquanto os Bills e seus torcedores lembram do jogo como uma de suas maiores vitórias, do outro lado os Oilers seriam lembrados por jogar no lixo uma vantagem histórica. Naturalmente, as brincadeiras com o time de Houston não seriam nem um pouco amistosas. David Letterman, em seu programa “Late Night”, fez uma lista de “10 desculpas dos Oilers para a derrota” e a primeira era “Não queria ir para o Disney World”.

Naturalmente não era fácil aceitar como aconteceu a derrota para os jogadores do Oilers. Jefferis conta que nessas ocasiões a única coisa que se faz é voltar para casa e esperar que sua família te ajude a esquecer o jogo. Ainda ressaltou que “com certeza [a derrota] não é algo que você quer contar para os seus netos”. Já do lado dos Bills, Frank Reich conta que certamente a virada foi o jogo da vida dele: “estava muito emocionado quando cheguei ao vestiário; não consegui segurar as lágrimas”.

 

Curiosidades e Hall of Famers

Foto: Pro Football Hall of Fame

Como é conhecido, o jogo da rodada de Wild Card é até hoje a maior virada da história da NFL, com o Bills tirando uma vantagem de 32 pontos do adversário. Steve Christie, o responsável pelo chute da vitória, foi herói em seu primeiro jogo de playoffs na carreira. A chuteira usada no jogo hoje se encontra no Hall da Fama da NFL, em Canton, Ohio, marcando a histórica partida.

Do lado do Houston Oilers, tivemos alguns Hall of Famers naquele jogo: o OG Mike Munchak (atualmente técnico de linha ofensiva do Denver Broncos), o QB Warren Moon e o OL Bruce Matthews. Já do lado dos Bills a lista é extensa: o WR Andre Reed, o DE Bruce Smith, o WR James Lofton, o QB Jim Kelly (que não jogou por problemas no joelho), o RB Thurman Thomas, o HC Marv Levy, o GM Bill Polian e o então dono do time Ralph Wilson.

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