Hoje daremos início a uma série de textos sobre os representantes dos Colts no Hall da Fama da NFL e do Ring of Honor do time. Para começar, falaremos sobre Art Donovan, ou apenas “Fatso”, defensive tackle do Baltimore Colts e primeiro membro da franquia a ser introduzido no Hall da Fama da Liga.

Fale de mim sobre como eu sou. Eu não sou ninguém, como você ou qualquer outra pessoa. Tive a sorte de jogar futebol profissional e todos gostaram de mim. É isso. – Arthur Donovan Jr.

A FAMÍLIA DONOVAN: ENTRE O ESPORTE E A GUERRA
Foto: Bob Thomas/Popperfoto – Getty Images

Três gerações da família Donovan ficaram marcadas pelo importante papel nos esportes e também nos campos de batalha. Mike Donovan, o avô de Art Donovan Jr., lutou na Guerra Civil americana, à época com apenas 15 anos. O nativo de Chicago descobriu durante a guerra um dom para a luta enquanto servia ao lado da União. Ao fim da guerra, ciente de seu potencial, Mike passou a disputar lutas de boxe em diversos locais do país, ainda que de forma ilegal em alguns deles. Sua reputação apenas aumentava e foi após 44 anos na atividade que Mike foi preso em uma das lutas ilegais que praticava. Engana-se quem imagina que era o fim da história entre ele e o boxe. Após alguns anos, agora na legalidade, Mike foi considerado o campeão mundial dos pesos-médio, se tornando uma celebridade dos esportes na América.

Mike se tornou o instrutor do New York Athletic Club, após derrotar Walter Watson, então instrutor da prestigiada instituição. Sua fama apenas aumentava, se tornando amigo pessoal do comissário da polícia de Nova Iorque, Teddy Roosevelt. A amizade o levou até a Casa Branca e o tornou uma celebridade internacional. Um de seus 14 filhos, Art Donovan Sr., seguiu os passos do pai. Entretanto o sucesso dentro do ringue como lutador não foi tão grande quanto o de Mike.

Art Donovan Sr. como árbitro em luta de boxe – Foto: New York Daily News Archive – Getty Images

Sua carreira de boxeador foi interrompida para servir na Primeira Guerra Mundial, na França, e em conflitos na fronteira com o México. Art, que começou a aprender sobre o boxe desde os cinco anos de idade, sabia que talvez não possuísse tanto talento quanto o pai, mas sua paixão pelo esporte o tornou um aclamado juiz da modalidade e o instrutor da NYAC após a aposentadoria de seu pai. Comandou lutas nos lugares mais famosos do país, como o Madison Square Garden, e seu nome era sinônimo de competência na profissão.

Art Donovan Jr pela US Marine. Foto: Associated Press

Art Donovan Jr, o terceiro representante das gerações dos Donovan, não tomou o caminho do boxe, mas o do futebol universitário. Em 1942 recebeu uma bolsa de estudos na universidade de Notre Dame, mas assim como seu pai e avô, Art atendeu ao chamado das forças armadas e lutou na Segunda Guerra Mundial pela Marinha Mercante americana. Ao fim da Guerra, Art Jr. voltou aos Estados Unidos e à sua carreira de futebol universitário, dessa vez jogando por Boston College. Em 1950 foi escolhido pelo Baltimore Colts, onde viria a se tornar um dos maiores de todos os tempos num dos melhores times da história da Liga.

O CAMINHO ATÉ A NFL

Durante o high school Art não colecionou números impressionantes como um defensive tackle. Porém, após retornar da Guerra como um veterano que sobreviveu a confrontos armados no Japão, Art se tornou um jogador excepcional em Boston College. Pelos Eagles, Art jogou como offensive e defensive tackle, sendo dominante em ambos lados da bola. Pela universidade, obteve 20 vitórias, 13 derrotas e três empates. Em reconhecimento por sua carreira pela universidade, Art foi introduzido no Boston College Varsity Club Athletic Hall of Fame em 1970, 20 anos após a sua saída para a NFL. Em 1999 teve a sua camisa aposentada no Alumni Stadium também como uma homenagem, sendo um de apenas nove que receberam esta homenagem.

Art Donovan na época de College – Foto: Boston College Eagles

Durante a cerimônia de aposentadoria de sua camisa, Art, sempre de bom humor, brincou: “Imagine isso. Quem eu era no College? Mas veja como as coisas mudaram. Eu usei tantos números que nem me lembro, mas acho que o último foi o 63.”. Nenhuma nomeação para o All-America Team, apenas uma indicação para o All-Star Game e até mesmo a rejeição para o All-New England Team. O fato era que dentro e fora de campo, seja onde for, Art sempre foi muito bem quisto por todos a seu redor, sendo apelidado pelos amigos de “o bulldog”.

A classe dos Boston College que Art jogou acabou por enviar 14 jogadores a liga de futebol profissional, porém, apesar da qualidade dos jogadores, a melhor temporada que tiveram foi marcada por seis vitórias e quatro derrotas, em 1946, em seu primeiro ano pelos Eagles. O recorde, provavelmente não muito chamativo, se devia muito aos fortes oponentes que enfrentavam anualmente. Em 2008 foi considerado um dos atletas mais importantes de Boston College pela Sports Illustrated, além de ser o primeiro jogador da universidade e entrar para o Hall da Fama da NFL.

ENTRANDO PARA A HISTÓRIA DA LIGA

Em 1947, Art Donovan foi selecionado na 22ª rodada do Draft da NFL. De acordo com o site oficial da NFL, à época, o time era o New York Giants, entretanto os dados são um pouco incertos, já que no período inúmeras franquias mudaram de cidades além de trocaram de nome. O que se tem certeza é que Art iniciou sua carreira profissional em 1950, com o Baltimore Colts selecionando o defensive tackle por meio de um Draft especial, na terceira rodada. Porém, o primeiro Baltimore Colts foi extinto e saiu da liga. Com isso, Fatso passou a jogar pelo New York Yanks em 1951, franquia que também foi extinta e em 1952 acabou por se tornar jogador do Dallas Texans. Com mais uma mudança de cidade, os Texans se tornaram o novo Baltimore Colts, que veio a se estabelecer como um dos melhores times da história.

Art Donovan pelos Colts – Foto: USA Today

Art era uma um jogador extremamente descontraído e apreciado por todos. Sua presença era fácil de ser notada, assim como seu jeito bem-humorado. Após passar alguns anos em times que não tiveram um longo futuro na Liga, Fatso chegou a fazer piada com a situação. “Eu ajudei a matar três times”, se referindo aos extintos Baltimore Colts, New York Yanks e Dallas Texans, onde jogou.

Art Donovan jogou na NFL por 12 temporadas totalizando 138 jogos. Infelizmente faltam dados estatísticos das temporadas em que Fatso jogou. Nos registros constam apenas oito fumbles forçados e um safety, a única pontuação registrada em sua carreira. Apesar dos números não mostrarem a importância e a qualidade de Donovan, o jogador é considerado uma dos melhores defensive tackles da história da liga. Era definido como um jogador rápido, forte, grande e muito inteligente, uma combinação que o tornava praticamente imparável dentro de campo.

Era extremamente ágil para um jogador do seu tamanho: estimava-se que o jogador tinha entre 270 e 200 libras, aproximadamente entre 123 e 136 quilos. “Ele tinha bom equilíbrio e muita agilidade. Um homem sozinho não conseguia derrubar Artie.”, comentou Buzz Nutter, center dos Colts que jogou com Donovan. Apesar de extremamente ágil e rápido para o seu tamanho, Art tinha um incentivo dos Colts para controlar seu peso. A cada temporada que o jogador permanecesse com menos de 275 libras (aproximadamente 124 quilos), ele receberia um bônus salarial de US$ 2.000,00. Naturalmente, Fatso não recebia os bônus em todas as temporadas.

Linha defensiva do Baltimore Colts em 1958 – Ordell Braase, Don Joyce, “Big Daddy” Lipscomb, Art Donovan e Gino Marchetti – Foto: Pro Football Hall of Fame

Mas de nada adiantava todas as qualidade físicas sem a qualidade mental, resumida por Weeb Ewbank, lendário técnico dos Colts: “você não pode enganar Donovan com a mesma jogada duas vezes e, contra armadilhas, não existe alguém igual a ele”. Os oponentes de Art sofriam. Em jogo contra o San Francisco 49ers, o offensive tackle Don Campora perdeu alguns dentes tentando disputar as jogadas com o defensor. O jogador de linha ofensiva dos Bears e integrante do Hall da Fama, Stan Jones, uma vez contou em entrevista: “ele sempre foi o defensive tackle mais difícil de bloquear, para mim. O mais inteligente que eu já enfrentei. Ele era rápido, como um matador. Ele fingia se mover para um lado e ia para o outro.”.

Durante a carreira, suas atuações o credenciaram a ser selecionado para o All-NFL Team em quatro oportunidades, em anos consecutivos de 1954 até 1957, além da participação em cinco Pro Bowls. Também fez parte do NFL All-Decade Team de 1950, ao lado de vários companheiros de equipe, como Lenny Moore, Raymond Berry e Gino Marchetti. Ao lado de outros astros da época, Art Donovan foi um dos protagonistas do 1958 NFL Championship Game. O jogo é considerado um dos maiores de todos os tempos e marco para a popularização do esporte nos Estados Unidos. Fatso era um dos “Magnificent Seven”, ou “Sete magníficos”, que marcaram uma geração do Baltimore Colts, ao lado de Johnny Unitas, Lenny Moore, Raymond Berry, Jim Parker, Gino Marchetti e o técnico Weeb Ewbank. O grupo também protagonizou e venceu o NFL Championship Game de 1959.

Cerimônia de introdução de Art Donovan no Hall da Fama – Foto: Pro Football Hall of Fame

Em agosto de 1968 Art Donovan se tornou o primeiro jogador da história dos Colts a entrar no Hall da Fama da NFL, além de ser o primeiro jogador que atuava exclusivamente na linha defensiva a receber a honraria. Apesar de estar apenas em seu segundo ano de elegibilidade ao Hall da Fama, Art conseguiu ser eleito a frente de inúmeros jogadores que esperavam por décadas à sua frente. O pouco tempo até a sua chegada a Canton prova o enorme impacto no jogo que Artie teve e o grande legado deixado pelo jogador. Em 2004 foi introduzido também no U.S. Marine Corps Sports Hall of Fame, como reconhecimento dos seus anos servindo à corporação. Art foi um dos jogadores selecionados para este Hall da Fama desde que o mesmo foi fundado em 2001, sendo o primeiro jogador de futebol americano.

VIDA PÓS-FUTEBOL AMERICANO

Após 12 temporadas de futebol americano, Art se aposentou ao ser cortado pelos Colts antes do início da temporada da NFL. A partir daí, Artie passou a administrar uma loja de licores e o Valley Country Club, em Townson, que pertencia a sua família desde a década de 50. Entretanto a aposentadoria dos campos não o manteve longe dos holofotes e da imprensa. O ex-jogador fez inúmeras aparições em programas de TV, onde continuava a contagiar as pessoas com suas histórias.

Capa da autobiografia de Art Donovan – Foto: Reprodução/Amazon

Apesar da aposentadoria o futebol americano sempre fez parte de Artie, fazendo com que ele trabalhasse como comentarista dos jogos dos Colts em programas de rádio, um deles ao lado de Charley Eckman. Também participou de outros programas de rádio, TV e propagandas da ESPN e a Maryland Lottery. Art também se arriscou a escrever, publicando sua autobiografia em 1987, intitulada de “Fatso: football when men were really men”. Sobre contar suas experiências, Art comentou ao The Baltimore Sun: “Eu acho que contar histórias é uma arte. Eu nunca vi dessa maneira. Apenas comecei a falar e todos começaram a rir. Então, eu continuei falando e eles continuaram rindo.”

De fato, as pessoas adoravam ver Art Donovan, seu humor era contagiante. John Steadman, colunista do Baltimore Sun, chegou o ex-jogador Artie como “uma maravilha do mundo ambulante”. Após a publicação de sua biografia, Artie participou inúmeras vezes do Late Night com David Letterman e do The Tonight Show com Johnny Carson. As histórias de Art eram muito apreciadas, fazia piadas, por exemplo, com seu sobrepeso e os bônus que ganhava caso ficasse no limite estabelecido pelos Colts: “Hoje os jogadores tem dietas, peso e exercícios controlados pelos nutricionistas. Nós tínhamos cachorro quente, cheeseburgers, salame e mortadela, e fizemos tudo certo”. Abaixo vocês podem conferir uma breve participação de Art Donovan num dos programas de TV em 1990, além das mais de 10 participações no programa de David Letterman no link.

Em 2013, aos 89 anos, Art faleceu por uma doença respiratória internado em um hospital de Baltimore. Uma pessoa extremamente simples e que mesmo na hora de partir fazia questão de ser como sempre, fazendo todos felizes ao seu redor com suas histórias e piadas: “se a minha esposa não me mandar (para o sepultamento) com uma garrafa de Schlitz no caixão, eu vou assombrá-la”.

 


Em breve teremos mais textos de jogadores imortais dos Colts. Fiquem ligados!

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