Você amava brincar com aquela bolinha Lou, estava sempre com ela entre os dedos, olhando para fora pela janela e vendo a neve cair. Você ainda se lembra daquele dia que o seu pai chegou do trabalho com aquela bolinha e com uma luva, a sua primeira luva, ele te ensinou a jogar, te ensinou a amar o velho jogo de beisebol. Não, ainda não podia sair, só podia jogar bola quando a primavera chegasse e as folhas das árvores crescessem. Paciente você se sentava com as mãos nos joelhos e desejava que janeiro acabasse logo, que as nuvens se afastassem e que o sol voltasse a brilhar. Aquele janeiro passou, vários janeiros passaram, mas aquela criança inquieta ainda estava lá, ela ainda está aí, aquela criança que tem brilho nos olhos quando é solta dentro do campinho de beisebol.

Você amava o beisebol, não descansava um minuto, não parava nem um minuto, se pudesse nem comeria, só para poder jogar mais um pouco. O beisebol também te amou Lou, ah, e como! Ele te deu a oportunidade de jogar no time que você via de pertinho, o Yankees. Te deu a oportunidade de cruzar o país fazendo aquilo que você amava, te deu a oportunidade de conhecer a Eleanor, de ser conhecido, ter voz, inspirar tantos outros garotos a persistirem nos seus sonhos. Lou, parece bobagem, você não vai aceitar isso, mas o que você representa para os que amam beisebol é até maior do que você, maior do que você pode, ou quer entender.

O apelido não foi por acaso, você não gostou no início, mas é isso que faz ele pegar, não é? O cavalo de ferro! Dois mil cento e trinta jogos consecutivos, não é por acaso isso, você era o primeiro a chegar e último a sair do treino, cuidava da saúde, sempre dando 110% de si todos os dias, e colheu os frutos da sua dedicação. Quantos jogadores podem olhar pra trás e se orgulharem em dizer que são donos de oito anéis de campeão, dois MVPs, 493 home runs?

“Do que vale o dinheiro sem o amor?”, sua mãe costumava te ensinar isso e você levou isso para a vida toda. Ora, todos te amam Lou, até mesmo quem joga contra você. Como você mesmo disse, quando o New York Giants, o time que você daria até o braço direito para vencer e vice-versa, te manda um presente, isso é alguma coisa. Quando até a sua sogra te defende nas pequenas discussões do dia a dia, isso é alguma coisa. Seu número quatro está pra sempre aposentado, mesmo lá, parado, ele ainda conta todas essas histórias.

A vida não foi fácil nessas últimas semanas, largar o seu trabalho, o seu lazer, a sua vida inteira, tudo a mesma coisa, tudo de uma vez, foi muito difícil, era como se uma parte sua morresse. Duras as noites sem dormir depois que o médico te deu a notícia. Eu sei, você daria qualquer coisa para melhorar, para se curar, pra voltar e jogar a sua última partida diante do estádio Yankee lotado, a última música da sua última dança. O tempo é implacável, até aquele que parece ter um corpo de ferro precisa se curvar e reconhecer a sua própria fragilidade, a sua própria insignificância, a sua raiz humana, que ELA pode acabar com tudo.

Eterna gratidão todos tem por tudo que você fez, olhe para toda essa multidão na sua frente, todos se considerariam sortudos só de passar um dia com você. Enxugue as suas lágrimas, não há com o que se preocupar agora, estamos todos orgulhosos do que você se tornou, nos sentimos sortudos de ter conhecido você, mesmo que apenas como números em uma tela. Sim, eu me sinto a pessoa mais sortuda na face da terra, só de poder escrever isso para outras centenas de pessoas. Nós dois somos sortudos Lou, mas descanse, você ainda tem muito o que viver, mesmo morto a tanto tempo.

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