Em uma temporada com notícias de estampar capas de jornais quase que diariamente, a (não tão) surpresa da vez foi o quarterback do Dallas Cowboys, Tony Romo, reconhecer o momento ótimo vivido pelo time graças ao desempenho acima da média do rookie Dak Prescott e, com isso, assumir o papel de reserva e apoiador do jovem signal caller escolhido na quarta rodada do draft deste ano.

O ponto crucial nesta história está na forma como Romo expressou o sentimento em relação à temporada em andamento e o possível dilema pessoal, entre deixar o ego predominar o momento ou pensar coletivamente e ajudar a equipe.

É importante lembrar que Tony não é mais um menino e possui currículo capaz de fazer inveja a muitos jogadores da liga, porém a ficha médica do natural da Califórnia certamente é relevante como interrogação para quem argumenta sobre o fato de ele não poder render como no ano de 2014, última oportunidade na qual foi eleito para o Pro Bowl. Tanto que, o afastamento mais recente dos gramados se deu por conta de uma lesão na coluna no jogo de pré-temporada contra o Seattle Seahawks.

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Tudo isso culminou na coletiva de imprensa realizada no dia 15 de Novembro, que ficou marcada pelo fato de, em cinco minutos e cinquenta e oito segundos, o veterano manifestar em palavras profundas a síntese da situação, incluindo nas linhas escritas à mão a sensação de impotência provocada pelo fato de não estar em campo, a predileção por outro ao invés dele, momento não vivido até então na trajetória de mais de dez anos pela equipe do Texas e, entre outros pontos, o reconhecimento dos méritos que Prescott possui em guiar a equipe com o melhor desempenho da liga inteira, o credenciando a continuar na liderança do America’s Team.

Apesar de triste e frustrante, o fato não é novidade na NFL e temos casos marcantes de como o acaso pode mudar os rumos de jogadores, times e simbolizar até mesmo o início de eras. Podemos citar como exemplo clássico, a situação envolvendo a transição entre Drew Bledsoe e Tom Brady. Drew era o franchise quarterback que poucos times tiveram a sorte de obter, com longevidade na liga e carreira consistente, sem polêmicas. Um azar do destino, porém, fez com que o destino dele e do recém-escolhido da Universidade de Michigan se cruzassem por meio da trombada que o linebacker Mo Lewis deu em Bledsoe, provocando uma grave contusão no signal caller do New England Patriots e a ascensão do então desconhecido jogador vindo da sexta rodada do Draft de 2000. O resto virou história que está em registro até hoje.

No jogo do Dia de Ação de Graças deste ano contra o Washington Redskins, pudemos ter uma mostra do quão rápido o desenvolvimento do jogador da Universidade de Mississipi possui, através de diversas qualidades que são difíceis de se encontrar em um calouro, ainda mais quando ele não é foi de escolha tão alta e vinha com certa desconfiança dos olheiros em geral por conta da incógnita gerada por uma prisão devido a dirigir sob influência. A liderança, calma no pocket e arsenal de jogadas são algumas das armas que o jovem quarterback possui.

Claro que o sucesso da equipe não gira em torno do camisa 4 dos Cowboys. O time montado para esta temporada é muito equilibrado, com jogadores que fazem a diferença tanto na defesa, quanto no ataque e a maior parte deles vive boa fase, como no caso do wide receiver Cole Beasley, que, mesmo não sendo o WR1 da equipe, acumula até então 647 jardas recebidas e 5 touchdowns, contribuindo para o desempenho notável no geral, obtendo 28,7 pontos por partida, a terceira melhor média de todos, além de um setor defensivo igualmente produtivo, cedendo apenas 19,4 pontos por jogo, representando o décimo melhor número da liga. Não podemos deixar de citar a escolha do RB Ezekiel Elliott, que já superou as 1000 jardas no primeiro ano como profissional e contribui de maneira substancial para o sucesso geral. Todos os pontos citados contribuem com a fala de Tony na coletiva do dia 15, que, entre outros fatos, ressaltou a parte de sentir este time como o melhor tecnicamente do qual já fez parte e o mais capacitado a brigar por uma vaga nos playoffs e, quem sabe, o Super Bowl.

O ponto chave também está na resiliência de Romo em saber que a engrenagem continua girando, e muito bem, sem contar com ele. Depois da semana 9, após o confronto contra Pittsburgh, o então reserva conversou com o head coach Jason Garrett e explicou que entendia o momento atual do time e que a situação do time não era a de discutir a substituição de Dak, já que o mesmo conseguiu guiar o time para uma campanha que até antes daquele jogo era de incríveis oito vitórias e uma derrota, com o revés sofrido na primeira semana sendo a única vez na temporada que o time do Texas terminou atrás do placar.

O respeito demonstrado pelo camisa 9 é mútuo e até maior pela admiração que Prescott possui.  Logo após a entrevista coletiva dada por Romo, o rookie mencionou que “Ele (Tony Romo) é uma grande inspiração para mim e continuará sendo. Eu aprendo muito todos os dias e ele me apoia a cada momento”.

Atualmente os tabloides discutem a possibilidade de troca do veterano por parte da equipe de Arlington, embora o presidente, head coach e jogador desmintam os rumores. Ficar como reserva é a realidade iminente e o futuro visível para Tony, caso o time consiga obter bom desempenho nesta temporada sob o comando de Prescott e chegue pelo menos aos playoffs, o que não consegue desde a temporada 2014.

É difícil crer, mas, parece que estamos presenciando o encerramento da era de um grande líder, com carisma e garra, porém pelo azar, ou falta de sorte ocasionada por um lance, viu uma nova estrela surgir e levar o time de uma temporada 4-12 para a possível melhor campanha em fases regulares desde a aquisição por parte de Jerry Jones, em 1989 e iniciar o que pode ser um novo capítulo, com a assinatura de Rayne Dakota Prescott.