No final de semana passado, pudemos assistir ao combine. Muito já se foi falado, o assunto já está ficando velho inclusive. Entretanto, uma dessas histórias do combine nem ficou nem ficará velha. E o protagonista da mesma é o linebacker Shaquem Griffin. Há exatamente uma semana ele escreveu uma carta aberta a todos os general managers da liga. Então, ao invés de escrever uma coluna qualquer, resolvi traduzir a tal carta. É extensa, já aviso. Mas leia, vai valer e muito a pena.

Uma carta aos GMs da NFL

“Caros General Managers,

Tudo que vocês precisam saber sobre mim pode ser descoberto voltando aos meus oito anos de idade.

Então permitam-me levá-los.

Era uma noite de sexta-feira em Saint Petersburg, Flórida, e eu estava dormindo (ou pelo menos tentando). Minha mente estava a milhão porque eu e meu irmão gêmeo, Shaquill, tínhamos uma partida na manhã seguinte. Ele estava no quarto comigo, e não conseguia dormir também, porque se ganhássemos, avançaríamos aos playoffs. Meu edredom cobria minha jersey azul real (exatamente, eu dormi com ela). Quando criança, eu sempre dormia com minha jersey na noite anterior a uma partida. Era esse meu nível de prontidão para jogar todo sábado.

Na manhã seguinte, quando chegamos ao campo – já que era uma liga infantil e havia restrições quanto ao peso – tivemos que nos pesar. Eu não sei se ainda fazem dessa forma, mas à época, cada treinador pesava os jogadores adversários, e se você fosse muito leve ou muito pesado, não estaria apto a jogar. Eu tive que perder uns quilinhos para aquela partida, e eu tinha me pesado na noite passada e naquela mesma manhã, então eu sabia que estava tudo nos conformes.

Mas quando o treinador adversário me pesou, ele disse que eu estava muito pesado.

Ele me disse que eu não poderia jogar.

Eu fiquei desolado, né? Quero dizer, eu fiquei devastado. Meu técnico me envolveu com seu braço, me disse que ficaria tudo bem, me levou ao nosso vestiário e ele mesmo me pesou.

Desta vez, eu não estava acima do peso.

Eu imaginei que a balança do outro treinador deveria estar quebrada ou algo do tipo. Nem me veio o pensamento de que alguém deliberadamente tentou me deixar de fora do campo. Eu era uma criança, né? Muito novo para entender que certas pessoas tem alguns porquês.

Meu técnico me levou de volta ao cara que me pesou para que pudéssemos fazer de novo, e – isso foi há muito tempo, então eu não lembro exatamente o que foi dito, mas basicamente, o treinador adversário disse que o problema não era meu peso.

Era a minha mão.

Ele disse que eu não deveria jogar futebol americano de jeito nenhum.

Porque futebol americano é para jogadores com duas mãos.

Vejam só vocês. eu nem conhecia esse cara. Então eu não sabia porque ele tinha um problema comigo jogando. Eu já vinha jogando há alguns anos e eu era muito bom, então talvez ele só quisesse deixar um de nossos melhores jogadores fora de campo para ter uma chance maior de vitória. Eu sinceramente não sei.

Mas essa foi a primeira vez na vida em que eu tive que lidar com alguém me falando que eu não devia (ou podia) fazer algo por causa da minha mão. Como se eu fosse defeituoso ou algo do tipo. Como se eu não pertencesse a um certo lugar.

Eu não vou explicar a doença com a qual nasci que não permitiu os dedos da minha mão esquerda se desenvolverem completamente. Ou falar da vez, quando eu tinha quatro anos, em que eu tentei cortar meus próprios dedos porque eu sentia dores constantes. Ou sobre quando eu tive que amputar minha mão esquerda pouco tempo depois. Vocês provavelmente já sabem disso – e se não souberem, joguem no Google. A história está por aí.

E essa não é uma história melancólica. Não é nem mesmo um história triste. – Pelo menos para mim.

É só… Minha história.

É uma bênção ser resiliente. Mas é uma bênção ainda maior ter uma família que nunca me deixou dar desculpas para nada e que me ensinou a nunca dar ouvidos a ninguém quem me dissesse que eu não poderia fazer algo – especialmente por causa da minha mão.

Meu pai sempre criava umas bugigangas para me ajudar a malhar. Nós tínhamos esse troço que chamávamos de “o livro”, e era basicamente um pedaço de madeira coberto por pano que eu pressionava contra a barra com meu braço esquerdo na hora do supino para ficar com os braços nivelados. A gente tinha um outro bloco que eu usava para barras e flexões, e eu tinha umas correntes e faixas para segurar halteres e fazer outros exercícios.

E meu pai sempre nos treinava pesado. Eu, Shaquill e nosso irmão mais velho, Andre.

No nosso quintal, nós tínhamos umas pilhas de tijolos com um pedaço de pau em cima, como se fosse um obstáculo. E quando nós corríamos rotas, tínhamos que pular o obstáculos e fazer mais coisas durante a rota. Daí meu pai lançava a bola, e ele lançava forte, bem nos nossos peitos. E toda vez que deixávamos cair ele falava “Nada na vida é fácil”.

Esse era o lema dele – não só para mim, para todos nós.

Nada na vida é fácil.

Cara… Eu odiava esses treinos. Tinham vezes que eu queria muito desistir. Às vezes, quando meu pai lançava a bola tão forte que ela ricocheteava no meu peito ou me atingia no rosto, eu pensava “Eu não quero fazer isso nunca mais”.

Mas ele nunca desistiu de mim.

“Você vai me agradecer um dia” ele falava.

Na época, eu não acreditava nele. Agora, eu entendo, e o agradeço sempre que tenho a oportunidade, porque todo aquele esforço no quintal me ajudou a desenvolver a mentalidade capaz de lidar com tudo – que de qualquer forma que você me atingir, eu vou te atingir ainda mais forte.

Foi isso que eu fiz aquele dia quando aquele treinador me disse que eu não deveria jogar futebol americano.

Eu acabei podendo jogar aquele dia, e eu me lembro como se fosse ontem. O jogo já estava próximo do fim, e nós estávamos na frente. Eu estava na defesa, jogando de linebacker. O wide receiver correu uma slant e eu li a jogada, entrei no meio da rota, me atirei e peguei a bola, virando de costas para garantir a posse de bola antes de cair no chão. Foi minha primeira interceptação na vida, e ela basicamente selou nossa vitória e nos mandou aos playoffs.

Eu levantei e corri, segurando a bola com minha mão boa e pensando que dali em diante, ninguém nunca me falaria que eu não devo estar num campo de futebol americano.

E que ninguém me falaria que eu não poderia ser grande.

 

“Ninguém nunca me falaria que eu não devo estar num campo de futebol americano. E ninguém nunca me falaria que eu não poderia ser grande.”

 

Eu levei essa mentalidade durante todo o ensino médio.

Eu fui caçoado por causa da minha mão e alguns caras sempre me provocavam, mas na maioria das vezes, eu só ignorava. No campo, eu tive um começo devagar ainda me ajustando ao nível do ensino médio, mas eu fui crescendo e me tornei um líder e um dos capitães da equipe.

Mas aqui, ao invés de falar dos sucessos obtidos, eu acho que prefiro falar sobre alguns dos momentos mais difíceis da minha vida – os pontos baixos. Porque eu acho que é aí onde o verdadeiro caráter aparece. É aí que você descobre quem as pessoas realmente são – quais são suas reais capacidades.

Meus pontos baixos vieram na faculdade.

Eu fui para UCF pensando que ia jogar na minha temporada de calouro, e que todo mundo ia saber quem eu era. Eu estava muito confiante.

Mas as coisas não se desenrolaram nem um pouco parecido com isso.

Fiquei de fora na minha primeira temporada, recebi uma redshirt. No ano seguinte, eu joguei bem na pré-temporada e cheguei a ser o primeiro reserva.

Logo antes da estreia contra Penn State, caí para segundo reserva.

Na semana seguinte, fui para o segundo time.

E ninguém me disse o porquê.

Sempre que eu perguntava aos técnicos porque eu estava sendo rebaixado eles só falavam coisas como “Continue treinando”, “Mantenha o foco” e “Sua hora vai chegar”.

Então foi basicamente o que eu fiz durante meus primeiros três anos em UCF.

Eu acho que a parte mais difícil desses três anos foi ver o Shaquill jogar aos sábados. A gente, desde a infância, sempre disse que nós vivemos um pelo outro. O sucesso dele era meu sucesso, e vice versa. E nós realmente pensamos dessa forma.

Eu não viajei muito com o time durante esses primeiros anos. Quando a equipe jogava fora de casa, meu irmão e nossos dois colegas de quarto, que também estavam no time, viajavam. Então, aos sábados, eu sempre ficava sozinho no nosso quarto vendo o jogo. Às vezes o jogo nem era na ESPN ou na FOX nem nada, então eu tinha que me virar com streaming. Eu sentava no sofá, sozinho, com o dormitório inteiro em silêncio exceto pelos comentários da partida enquanto eu assistia a meu irmão jogar… e vivia com ele.

Eu falava pra minha mãe que a faculdade era um lugar ruim para mim. Não a UCF – eu amo minha faculdade e vou representá-la para sempre. Era só… Aquele dormitório, cara.

Unidade 412, Quarto C.

Eu passava horas durante aqueles três anos em Orlando sentado naquele quarto, me perguntando porque eu não recebia uma oportunidade de jogar aos sábados. Chegou a um ponto que aquele dormitório estava com energias tão negativas que eu guardava tudo para mim. Eu não queria falar para ninguém o que eu estava sentindo – especialmente para o Shaquill.

É uma situação bem complicada, né? Tipo, meu irmão gêmeo estava lá jogando. O sonho dele estava se realizando, e ele fazia por merecer cada segundo, treinando pesado e mostrando os resultados no campo.

Eu queria tanto aquilo para mim, e embora eu sentisse que fosse bom o bastante, e fizesse tudo que os treinadores me pediam, eu não recebia uma oportunidade. E a última coisa que eu queria fazer era despejar minha negatividade no Shaquill e deixá-lo mal. Então eu sempre fazia questão de me manter positivo perto dele. Eu nunca falei para ele como eu me sentia naqueles três anos.

O ponto mais baixo para mim provavelmente foi no verão antes da minha terceira temporada, quando os treinadores continuaram treinando com a maioria dos jogadores em Orlando enquanto os outros foram para casa nas férias de verão.

Eles mantiveram o Shaquill na UCF no verão.

Eles me mandaram para casa em Saint Petersburg.

Foi a primeira vez em que eu e Shaquill realmente ficamos separados.

Eu passei o verão trabalhando com meu pai e Andre. Meu pai tem um guincho, então eu acordava às sete da manhã e ia trabalhar com ele, guinchando carros. Eu saía por volta da seis da tarde e ia à minha antiga escola treinar com o time de atletismo, depois eu encontrava com Andre mais ou menos às oito e trabalhava com ele até à meia noite, limpando escritórios na concessionária da Chevrolet.

Eu fazia isso todo dia, de segunda a sábado, durante verão inteiro.

Eu lembro de uma vez, quando eu estava trabalhando com meu pai, a gente guinchou o carro de um cara, e quando a gente entregou o carro, ele puxou uma nota de cinco dólares do bolso dele e me deu. Mas antes que eu pudesse pegar, ele puxou e a rasgou no meio. Ele me deu uma metade e colocou a outra em seu bolso. Eu não sabia se era para eu rir ou ficar com raiva.  Eu só fiquei olhando para ele.

Ele olhou para mim e disse “Continue trabalhando, rapaz. Porque nada na vida é fácil.”

Eu ainda tenho essa nota de cinco dólares rasgada em algum lugar na casa dos meus pais, porque eu não quero esquecer o que aquele cara me disse naquele dia – era a mesma coisa que meu pai me dizia quando eu era pequeno.

Nada na vida é fácil.

Analisando esse período, eu acho que precisava lembrar disso. Porque se ficar sentado sozinho no dormitório assistindo aos jogos no meu notebook era horrível, guinchar carros e limpar lixeiras naqueles escritórios era ainda pior.

Sinceramente, aquele verão foi a primeira e única vez, desde quando eu era um garotinho pulando obstáculos e tentando pegar foguetes do meu pai no quintal, em que eu pensei em desistir do futebol americano.

Foi um período muito sombrio para mim.

Depois de voltar para UCF para minha terceira temporada e a gente terminar a temporada 0-12, o treinador Frost me trouxe de volta à luz.

Vocês provavelmente sabem o que aconteceu depois: Nas duas temporadas seguintes, o professor Frost transformou um programa de campanha 0-12 num time campeão nacional invicto. (É isso mesmo, eu disse campeão nacional. E ninguém vai me convencer do contrário).

Ao longo do tempo, ele me deu a oportunidade que eu esperava desde que cheguei em UCF.

E eu aproveitei.

Eu acho que o que eu fiz no campo, principalmente nessa última temporada, fala por si só. Então eu não acho que preciso falar muito disso. Eu vou deixar minhas atuações falarem.

Além do mais, eu não me defino pelos meus sucessos.

Eu me defino pelas adversidades, e como eu perseverei.

 

“Eu acho que todos os meninos e meninas que nascem com complicações no parto… A gente tem nossa própria nação, e a gente tem que apoiar uns aos outros.”

 

Eu não durmo mais com minha jersey nas noites antes das partidas. Mas eu dormi nas instalações da faculdade praticamente a pré-temporada inteira nessa última temporada. Eu comprei um colchão inflável e uma colcha, daí eu fui ao mercado e fiz meu estoque de comidas e bebidas para já ter tudo que eu precisava. E ao invés de ficar saindo e voltando pro dormitório durante o training camp, eu dormia nas instalações, malhava e assistia mais jogos gravados.

Eu sabia que seria meu último training camp na UCF, então eu queria ter a experiência completa, sabe?

Eu só acho que conforme os jogadores evoluem em suas carreiras, eles começam a encarar o jogo de uma maneira diferente. Eles começam a pensar em garantir a faculdade, ou chegar na NFL para conseguir cuidar de suas famílias. Eles começam a encarar como um emprego – e eles deveriam, porque para chegar no topo, você tem que levar o jogo a sério. É muita responsabilidade.

Mas eu acho que alguns deles esquecem porque eles começaram a jogar quando pequenos – como eles amavam tanto o esporte que dormiam com a jersey na noite anterior a uma partida.

Eu comecei a jogar futebol americano porque eu amava. E sim, assim como qualquer outro, minha visão do esporte veio mudando conforme eu fui crescendo.

Mas ele não virou um trabalho ou obrigação.

Se transformou num propósito.

Teve gente duvidando de mim minha vida inteira, e eu sei que tem muitas crianças por aí com várias deformidades ou complicações no parto ou quaisquer rótulos que as pessoas colocam nelas, e eles vão ser alvos de dúvida também. E eu tenho certeza que Deus me pôs nesse mundo por um motivo, e é o de mostrar para as pessoas que não importa o que os outros dizem, porque as pessoas vão duvidar de você de qualquer jeito. Isso é fato na vida de todo mundo, mas especificamente nas de quem teve complicações ou outras supostas deficiências.

A parte importante é: não duvide de você mesmo.

Eu acho que todos os meninos e meninas que nascem com complicações no parto… A gente tem nossa própria nação, e a gente tem que apoiar uns aos outros, porque todo mundo nessa vida merece mostrar o que consegue fazer sem ter ninguém dizendo que eles não podem.

Eu sei que tem alguns olheiros e técnicos – e até alguns de vocês general managers – que provavelmente ainda duvidam de mim, e tá tranquilo. Eu entendo. Eu só tenho uma mão, e por conta disso, sempre teve gente questionando se eu realmente conseguiria jogar.

Se você é um desses general managers que acredita que eu posso jogar na NFL, eu só queria te dizer “obrigado”. Eu te agradeço mesmo, e estou empolgado com a oportunidade de jogar no seu time e te provar certo.

E se você é um dos que ainda duvida… Bom, eu quero te agradecer também. Porque vocês que me mantém motivado todo dia para treinar e jogar ainda melhor.

Quando eu tinha oito anos, eu jogava porque amava o esporte. Eu ainda amo. Mas agora, eu ainda jogo porque acredito que é meu propósito. Eu sei que não vai ser fácil. Nada na vida é fácil. Mas eu vou cumprir esse propósito. Eu tenho certeza disso.

 

 

Atenciosamente,

Shaquem Griffin

University of Central Florida

Campeões Nacionais de 2017 (13-0)”

 

Você pode ler a carta original aqui.