Desde Charlottesville, a polêmica envolvendo os assuntos racismo, preconceito e discriminação ainda reverberam com alguma relevância por aí, com requintes de hipocrisia e cinismo. E como se não fosse o suficiente, as polêmicas declarações de Donald Trump sobre os protestos colocaram mais lenha na fogueira da discussão.

Fazendo uma amarração geral em toda a situação: há um tempo se debate sobre o ativismo e militância do ex-QB dos 49ers, Collin Kaepernick contra a violência a qual a comunidade negra nos Estados Unidos é submetida cotidianamente. Na ocasião, a atitude do jogador causou controvérsia e mal estar dentro da liga.

Colin Kaepernick taking a knee
Colin Kaepernick #7 e Eric Reid #35 do San Francisco 49ersajoelhados em protesto durante o hino nacional antes do jogo contra o St. Luis Rams, no Levi’s Stadium no dia 12 de setembro de 2016, em Santa Clara, California. (Photo por Thearon W. Henderson/Getty Images)

Recentemente, manifestantes da chamada Alt-right – a extrema-direita estadunidense – organizaram uma passeata protestando contra a retirada da estátua do general confederado Robert E. Lee, justificando que aquilo representava um pedaço da história americana.

Guarde bem essa informação.

O caso acabou tomando proporções muito maiores, como se já não fosse absurdo o suficiente a Ku-klux-Klan e neonazistas desfilando lado a lado reivindicando os direitos dos brancos. E aqui abrirei mão das minhas opiniões por enquanto, pelo motivo de acabar sendo político demais em um portal sobre esportes. Já fiz isso no último podcast da casa.

Cobrado por uma posição a respeito, o presidente Donald Trump – sempre ele – disse que houve violência DE TODOS OS LADOS, fazendo uma alusão ao confronto entre os alt-right e os antifas, abreviação para definir grupos antifascismo. O caso acabou envolvendo alguns feridos e pelo menos uma morte por atropelamento de uma mulher que estava junto dos grupos antifascismo.

Donald Trump em mais polêmica
Donald Trump em seu discurso no Alabama, fala sobre os protestos da NFL.

Tal declaração foi alvo de inúmeras críticas por parte da opinião pública, que acusou Trump de conivência com os neonazistas e supremacistas brancos, sustentando assim, o ódio e a discriminação contra a população negra.

Chegamos então ao dia 22 de setembro de 2017 e a supracitada declaração de Trump sobre os protestos dos jogadores durante o hino nacional.

“Você não gostaria de ver um dos donos da NFL, quando alguém desrespeita a nossa bandeira, dizer: Tirem esse filho da p*** do campo imediatamente. Fora. Ele está demitido! Ele está demitido!”.

Frente a esse discurso, os jogadores, amparados pelos próprios donos dos times, protestaram em todos os jogos da semana 3, ajoelhados e de braços dados durante a execução do hino nacional. Seattle Seahawks, Tennessee Titans e Pittsburgh Steelers (excetuando-se o OL Alejandro Villanueva, por seus próprios motivos) sequer subiram ao campo.

Até aqui, nenhuma novidade.

É nesse momento que chegamos às portas do M&T Bank Stadium, em Baltimore, MD! Lembram da informação que eu pedi para guardarem? Ela será útil agora!

Obviamente, a onda de protestos gerou controvérsia entre os espectadores. Embora muita gente apoie essa forma de manifestação, muita gente, com o mesmo discurso cansado do patriotismo, se revoltou com esse tipo de atitude. Muitos publicaram vídeos queimando coisas dos times: camisas, toalhas, jerseys, season tickets, et cetera.

E aqui faço um apelo: se você está pensando em queimar qualquer coisa dos Ravens, por favor, doe para quem realmente é fã do futebol americano e do time, ao invés de se prestar a esse episódio patético, ok?

Agora, o novo alvo da indignação do público contra a atitude dos jogadores é a imagem de Ray Lewis, presente na porta do estádio.

Pois é: o prefeito de Charlottesville quis retirar a estátua de um general confederado que serviu as exércitos do sul dos Estados Unidos, pois remete à época escravagista e racial (essa segunda, a propósito, nunca acabou) do país, os supremacistas brancos choraram. A alegação: é parte da história.

Agora, temos uma massa branca – e isso não sou eu dizendo, é uma constatação óbvia quando se nota quem são a maioria dos indivíduos que choram e reclamam contra as manifestações na NFL – querendo retirar o símbolo o jogador mais importante para a história do Baltimore Ravens, pelo simples fato dele, junto com os demais jogadores, se manifestar em nome da igualdade e contra a discriminação e preconceito.

E mais uma vez, a desculpa é a mesma: patriotismo…

Talvez você se pergunte o porquê de eu estar colocando na mesma medida um sujeito que fez parte da história dos Estados Unidos e um jogador de futebol.

Assim, de forma simplista, parece uma comparação desmedida. Se olharmos o fator significado, a situação se equivale. É a manutenção de um padrão muito cômodo para um único grupo da sociedade. E agora o esporte aparece como um vetor disso.

Jogadores precisam ser o exemplo do que há de melhor e bom na humanidade. O esporte, além de entretenimento, possui fatores sociais muito importantes. Se deixarmos que a hipocrisia e o preconceito transbordem para o esporte, que exemplo daremos para as gerações que estão vindo aí? E que, normalmente, são as mais cativadas pelo espetáculo?

Ele se ajoelhou em Londres, junto com todo o time. Pela igualdade e preconceito, eu torço para que, em algum momento, todos se ajoelhem junto com ele.

Protesto dos RTavens no London Game
Ray Lewis junto com os jogadores ajoelhados durante a execução do Hino nacional no estádio de Wembley, em Londres, em 24 de setembro de 2017

Por Cleverton Linhares

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