“Toda segunda-feira é uma péssima segunda-feira durante uma temporada da NFL. Independente do resultado na noite anterior, uma segunda-feira sempre vem cheia de problemas.”

Essa frase proferida pelo lendário técnico Bill Parcells em seu discurso de aceitação no hall da fama em 2013 sumariza categoricamente o que trabalhar na NFL significa. Mesmo em qualquer vitória, alguma coisa sempre acontece. Talvez um setor da defesa tenha deixado à desejar, talvez a linha ofensiva não conseguiu encaixar os bloqueios certos, até mesmo seu quarterback ter sofrido para produzir. Quarterbacks são julgados pelo que não conseguiram fazer 10 vezes mais do que pelo que conseguem, e de forma justa. É preciso exigir um milhão mais de um QB do que de seus colegas. E em tempos cada vez mais midiáticos e explosivos, QBs estrelas são um veneno perigoso de manipular. Nosso próprio Bill Parcells estipulou, no seus 11 mandamentos para Quarterbacks que a posição não pode compactuar com Estrelas. O trabalho de um QB é muito complexo, irregular e insalubre, e apesar de hoje glorificarmos grandes jogadores com facilidade, muito pouco da rotina massacrante de um signal caller chega em nós.

“Eu não vou para a cama 1 hora da manhã para acordar às 5 e dizer: vamos ver se consigo encarar isso hoje”

Tom Brady é conhecido por conseguir se manter no estado físico primoroso de sempre por sua rotina extremamente controlada: dormir às 8:30, acordar às 5, não comer porcarias, treinar como um condenado e blá blá blá. E isso obviamente reflete no seu indiscutível sucesso. No entanto é impossível dizer que Quarterbacks não se esforçam tanto quanto qualquer outra posição nos esportes. Profissionais devem se dedicar, é óbvio.

Talvez a maior diferença entre QBs e seus colegas, na NFL, é que um QB está sendo treinado desde muito jovem. E desde que começa, nunca para. Um QB sempre precisa aprender sobre os adversários, conhecer seus companheiros, entendê-los, colocá-los na melhor situação possível para desenvolvê-los e aproveitá-los, além de conseguir inspirá-los, e liderar. Um Quarterback que não consegue ser um líder, cedo ou tarde falha. Vide exemplos como Jay Cutler ou Geno Smith, que independente de capacidade técnica, foram miseráveis ao longo de suas carreiras pela falta de controle do vestiários (Geno ficou 1 ano sem jogar por ter sido SOCADO por um companheiro da equipe) enquanto em contraste, Matt Schaub, ex-titular dos Texans, sempre liderou seus times e desempenhou o papel importantíssimo de gerenciar as crises. Até mesmo no declínio, como backup do jovem Derek Carr, Schaub inspirou e ajudou o time, que era muito jovem e passava por turbulências na comissão técnica. Não duvide nem um pouco da sua influência no desenvolvimento de Carr. 

Outro contraste gigante de liderança é o jovem Jameis Winston. Apenas veja, o então calouro (tem outro grande exemplo aqui). Liderança é, depois de Football IQ, a característica mais importante de um signal caller. Temos quarterbacks medianos bem sucedidos por cumprirem seu trabalho, que, segundo os mandamentos de Parcells, não é acumular jardas, prêmios e estatísticas, e sim levar seu time até a endzone.

Apenas um holder de Eastern Illinois

“Ele precisa de um coaching mais profundo especialmente para jogar under center e fazer ajustes. Ele pode ser uma gema escondida desse draft, possui as ferramentas necessárias e os números procurados por coaches na NFL para produzir nessa liga. Ele pode ser o melhor QB de uma escola pequena desde Kurt Warner”

Pelas proféticas palavras de um scout report de 2003, entende-se que Tony Romo, um jovem quarterback da (então escondida) Eastern Illinois University, seria draftado como projeto de algum time da NFL por volta da quinta rodada; no entanto, a ligação nunca veio. Quando questionado por um repórter, ainda nas entrevistas pré-draft de 2003, por que e como Romo foi parar em Eastern Illinois, Romo respondeu: “Eu era bom no colégio, mas não ótimo. Todos os anos em que estive na faculdade melhorei. Isso me trouxe ao ponto onde, agora, cinco anos depois, eu sinto que poderia ter jogado em uma escola da primeira divisão. No final do meu primeiro ano, senti que poderia ter jogado em muitas escolas da primeira divisão. No meu último ano eu senti que poderia ter jogado em qualquer lugar do país. Eu tenho melhorado ao longo dos anos. Aprendi a melhorar.”

Romo como um quarterback de Eastern Illinois

Romo ganhou o Walter Payton Award em 2002, premiação que é dada para o melhor jogador da segunda divisão do College, e quando perguntado sobre o impacto do prêmio em sua vida, o QB rapidamente demonstra sua seriedade, liderança e espírito de equipe, numa época em que os prospectos não tinham treinamento de mídia e não eram assediados comercialmente como hoje: ”Não sei ao certo o quanto o Heisman significa para Carson (Palmer, o ganhador do Heisman naquele ano, e futura primeira escolha geral do draft), mas isso significou muito para mim. É resultado não só do meu trabalho ao longo dos anos, mas também da minha equipe, e eu não teria sido capaz de chegar lá se não tivesse esses jogadores ao meu redor.Temos cinco All-Americans. É emocionante.”

Entretanto, nenhum time da liga se interessou o suficiente pelo QB, já que a classe de calouros era considerada rica na posição. Romo recebeu uma ligação inesperada, no entanto, algumas semanas depois do draft. Sean Payton, head coach por trás da reconstrução do New Orleans Saints e seu único título, era, em 2003, coach de Quarterbacks e assistente direto de Bill Parcells, lendário técnico que falhava em se aposentar pela segunda vez e assumiu a franquia de Dallas após 4 anos parado. Payton era um quarterback com uma curta carreira na NFL que assumira responsabilidades de coach desde cedo, e, coincidentemente, veio da mesma universidade que Tony Romo, Eastern Illinois. A situação era bem simples, e o próprio Payton afirma que haviam pelo menos 5 times interessados em Romo após o draft, e Romo escolheu os Cowboys por ser onde as chances de sucesso seriam maiores.

Romo na sua primeira volta a Wisconsin, em 2004, quando enfrentava o Green Bay packers

Os Cowboys vinham de uma temporada ruim em que perderam a lenda Emmitt Smith. O trabalho de Parcells era de uma reconstrução grande, e hoje em dia, conhecendo o dono e GM da equipe, Jerry Jones, a paciência da organização com reconstruções sempre foi bem curta, o que criava muitos atritos. A situação de Quarterbacks da equipe era enigmática com Quincy Carter, o Jay Cutler da época, sendo o starter. Tony conseguiu cavar a terceira posição no depth chart e sobreviver a pré-temporada na equipe, e até 2005 se tornou o backup, e holder de chutes.

Em 2005, Drew Bledsoe, campeão do Super Bowl XXXVI e 4 vezes Pro Bowler em New England, era a grande esperança de um time rapidamente renovado e fortalecido que antes de Parcells amargou 3 temporadas negativas consecutivas. Esperança essa depositada de forma assertiva, já que Bledsoe era um veterano que de fato competiu em alto nível e conhecia Parcells de seus tempos em New England, e, acima de tudo, devolveu aos Cowboys uma temporada positiva de 9-7, a segunda em 3 anos. Em 2006, os ânimos eram grandes, apesar da perda de muitos veteranos na Free Agency. Quando a temporada já estava de vento em popa, Parcells ficava cada vez mais infeliz com as performances do finalmente desgastado Bledsoe, e depois de uma performance abismal no primeiro tempo da semana 7, contra os Giants, Tony teve sua chance. O jogo não foi vencido, mas o desempenho de 2 TDs foi o bastante para Romo garantir a titularidade na semana 8, contra o forte Panthers de Jake Delhomme. 

Romo controlou o jogo, lançou para 270 jardas, um TD e uma interceptação, garantindo a vitória e o recorde positivo de 4-3.Os Cowboys iriam para os playoffs pela segunda vez na era Parcells em 4 anos, e perderiam um jogo muito apertado para os Seahawks. O camisa 9 permaneceria como o dono da posição pelos próximos 9 anos (com muitas lesões, é verdade) entretanto, a identidade do time da América se entrelaçou à história simples e de trabalho duro do rapaz de Wisconsin, descendente de imigrantes, de tal forma que até mesmo com as piadas constantes dos fracassos a cada temporada, a posição se manteve.

Romo representou uma Era dos Cowboys. Uma Era com muitas loucuras, com muitas tentativas e falhas. Uma Era de irresponsabilidades, uma era com MUITOS backups e MUITAS lesões. E ainda assim, uma de sucesso. Dallas passou uma década sem se preocupar com draftar quarterbacks, uma década no sentimento coletivo de AGORA VAI! Houve times ruins dos Cowboys com Romo. Houve times horrorosos. Mas times fantásticos também apareceram.

O meu MVP de 2014

A melhor temporada dos Cowboys nos anos 2000 foi a de 2014-15. Posso te provar. Não só o ano em que Dallas marcou mais pontos (467) desde 2007, como a segunda maior temporada em pontos da história da franquia (perdendo para os 479 pontos em 1983). Tal ataque teve como ponto focal a monstruosa linha ofensiva,  DeMarco Murray mostrando seu potencial máximo, e o ponto alto do bom entrosamento entre Tony Romo e seus receivers, especialmente com Dez Bryant. Romo liderou os QBs da liga no QB Rating com 113.2, teve 69% dos passes completos, 34 touchdowns e só 9 interceptações. A grande diferença de Romo para com o de facto MVP Aaron Rodgers, foi o volume. Rodgers teve ainda menos interceptações (5!) e mais touchdowns (38), porém tentou 85 passes a mais que Romo e completou portanto 37 passes para 676 jardas a mais do que o QB de Dallas. Romo ainda jogou uma partida a menos. Acima de tudo, o roster dos Packers era mais encorpado e provado (vindo de uma vitória no Super Bowl de 2011 e 5 aparições em playoffs seguidas) enquanto Dallas vinha tentando se provar após ficar 4 anos sem pós-temporada.

Depois de uma forte pré-temporada e training camp, o time texano contou em muito com o desenvolvimento de Demarco Murray, é verdade. O running back correu para 1845 jardas e 13 touchdowns. O argumento de que Rodgers precisou lançar mais e para mais TDs de modo a carregar seu time para mais vitórias é óbvio e esperado. E Rodgers ser o MVP de 2014 de forma alguma soa injusto e mal colocado. Como é colocado, em 2014, o melhor jogador da temporada para mim foi Romo. Por sumarizar e executar a risca os 11 mandamentos de um QB estipulados por seu mentor Parcells, Romo lidou com uma temporada turbulenta e uma defesa no mínimo incontinente para a melhor temporada dos Cowboys desde 2009, e consequentemente bancando os anos restantes de seu coach Jason Garret no cargo. Não se enganem, o maior líder dessa equipe até 2016 era Romo, especialmente desde a partida do veteraníssimo Demarcus Ware para os Broncos em 2013. E na única temporada em que Romo sobreviveu às lesões, foi a mesma em que o QB foi o mais preciso na vida.

Todo crédito para o senhor A-Rod que é um mestre do clutch e das jogadas difíceis. Entretanto, Romo também foi clutch, também foi preciso e enquanto isso, teve também toda a mídia o zoando por ser um QB sem sorte. Aaron Rodgers é o anti-Romo quando, mesmo baleado, os críticos esperam o absurdo, o inesperado. Já Romo passou a carreira inteira sendo menosprezado e questionado (tirando talvez seus 2 primeiros anos de starter) em toda pequena ou grande lesão que o afetou. A grande temporada de 2014 de Romo veio após sua cirurgia nas costas, em que muitos questionavam sequer a possibilidade de uma volta aos campos, mas nem o Comeback Player of The Year (prêmio dado ao jogador que mais se destacou superando algum obstáculo que o tenha impedido de jogar na temporada anterior) lhe foi dado, prêmio este dado ao tight end do eletrizante ataque de New England naquele ano, Rob Gronkowski.

O Quarterback da América

Romo teve todo o trabalho e pouquíssimo crédito. Ele não foi um Kurt Warner e nem precisava ser para ter seu reconhecimento como um quarterback que pertence à NFL. Seu caminho até a posição de estrela da liga nunca teve nada de especial, no entanto, o fato por si só é algo gigante. Romo nunca vai ser um dos melhores QBs a jogar o jogo, e ao mesmo, sempre vai ser um dos melhores QBs do esporte. Romo é um produto direto de Bill Parcells e seu método, um construto de um tempo em que QBs eram generais e não máquinas acumuladoras de touchdowns. De um tempo em que o importante era chegar na endzone, não importa como, e de segurar a vitória. Também de um tempo em que o 2-minute Drill era uma arte, uma necessidade latente de jogos mais lentos e com mais corridas. Ao mesmo tempo, o QB aprendeu a jogar nos anos 2010 com um ataque explosivo, dinâmico e inteligente, cheio de marcações e ajustes pós-snap. Romo personifica então o sonho americano de ser um Quarterback na NFL, apesar de sofrer de todos os males que isso lhe possa causar.

Em 2006, já como titular do Dallas Cowboys

Esse artigo pode muito bem ter sido desvirtuado de seu propósito inicial, que era comentar sobre a aposentadoria de Tony Romo. Isso sou o primeiro em admitir. Sobre o fato, nada posso dizer senão que Romo provavelmente cansou da pressão e do desgaste que a mesma causava em sua vida. E eu o entendo, Tony tem 36 anos, a cobrança de comandar um time da NFL deve ser insuportável e diária. As brincadeiras e o desgaste de sua imagem como ‘pipoqueiro’ também devem cansar, e o atleta já sofreu lesões demais. Não sei dizer ao certo porque a mudança de ideia em alguns meses, desde sua última coletiva com os Cowboys em que dizia que pretendia procurar seu lugar para jogar depois do sucesso, do muito agradável, diga-se de passagem, Dak Prescott. Talvez a tentativa de manter sua imagem ativa, já que agora vai trabalhar como comentarista para a CBS, evitando cair no esquecimento amargo.

I guess it's time to start dressing up. #CBS

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Mais importante do que sua aposentadoria e toda a polêmica, é seu legado. Graças a Tony eu consigo assistir, começando todo mês de Agosto, pro resto da minha vida, caras como Jacoby Brisset (outra cria de Parcells), Jameis Winston, Dak Prescott, Derek Carr, e esperar encontrar Quarterbacks que sigam as 11 regras do Coach Bill, que liderem seus vestiários e que lutem, mesmo quebrando as costas, pela vitória dentro de campo.

Se algo de importante existe na liga, em 2017, graças a Tony Romo, é o entendimento de que qualquer garoto do Wisconsin pode ser sim um QB do maior time do país, de que um garoto problemático da Flórida pode sim ser a primeira escolha geral do Draft, de que o irmão mais novo pode sim superar o irmão mais velho e famoso da família, e de que uma escolha despretensiosa de terceira rodada no Draft pode sim ocupar o lugar de um veterano (muito menos do que devia) venerado. Romo é mais importante do que acham para esse esporte, e será menos celebrado do que merece. De qualquer forma, fica aqui esse registro breve e muito mal detalhado de seus feitos e de sua importância.

14 Years

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