Na minha rua, perto da minha casa em Eden Prairie, Minnesota, havia uma casa que tinha normalmente diversos carros estacionados do lado de fora. Quando eu passava por ela com o carro, eu meio que andava devagar e me perguntava, “O que eles estão fazendo lá dentro?”

Um dia, alguns anos atrás, minha curiosidade foi mais forte que eu. Eu parei meu carro, fui direto até a cada e bati à porta para perguntar o que estava acontecendo.

Eu não tinha certeza do que esperar— talvez todos os carros estivessem lá porque meus vizinhos estavam fazendo sociais para amigos ou família ou talvez eles eram anfitriões de estudos da Bíblia. Nada diferente. Nada que eu realmente precisava saber. Mas, como se pôde ver, o que acontecia naquela casa acabaria tendo um grande impacto na minha vida.

Meus antigos vizinhos eram membros de uma organização sem fins lucrativos que fornece aparelhos auditivos a pessoas pobres por todo o mundo. Os carros do lado de fora de sua casa estavam lá para encontros que arrecadavam dinheiro para as viagens sem fins lucrativos para a África e Ásia.

Ajudar os outros é algo que foi parte da minha educação

Assim que eu ouvi sobre a caridade — e vi quão apaixonados meus vizinhos eram por ela— eu estava dentro. Eu disse para me inscreverem.

Eu sei o que você está provavelmente pensando.

Lá vai outro atleta que finge ser dedicado a trabalho de caridade ou ser apaixonado por uma fundação que provavelmente recebe seu nome.

Bom, isso não poderia estar longe da verdade. Porque, para mim, o trabalho filantrópico não é sobre uma marca ou boa publicidade. Nem perto disso. Ajudar os outros é algo que foi parte da minha educação e está tecido na trama que abrange múltiplas gerações da minha família. E, nos meus 32 anos, isso foi uma parte sempre presente e fundamental da minha vida.

Larry Fitzgerald do Arizona Cardinals em 29 de Dezembro de 2015, em Phoenix, Arizona. (Foto por Jed Jacobsohn/The Players Tribune)
Larry Fitzgerald do Arizona Cardinals em 29 de Dezembro de 2015, em Phoenix, Arizona. (Foto por Jed Jacobsohn/The Players Tribune)

Se eu tivesse que apontar como a tradição da minha família de dar de volta se originou, teria que ser com os meus avós — especialmente o meu avô, Dr. Robert Johnson. Aproximadamente 60 anos atrás, ele fundou uma organização sem fins lucrativos chamada Plano Child Development Center, a qual fornece cuidado ótico para crianças e adultos desfavorecidos. Plano ainda está por aí hoje em dia e serviu mais que um milhão de pessoas na área metropolitana de Chicago.Meus avós ensinaram minha mãe a importância do trabalho de caridade, algo que ela me ensinou mais tarde. Ao crescer, eu via minha mãe se envolver com diversas organizações sem fins lucrativos para diversas causas. Ela até dirigia algumas.

Eu aprendi que qualquer esforço que você coloque em uma causa voltará para você eventualmente — de formas que você nunca poderia imaginar.

Uma das organizações sem fins lucrativos nas quais ela estava envolvida ajudava as famílias de pessoas que viviam com HIV/AIDS e dava coisas para eles como comida e cuidado de crianças. Cerca de uma vez na semana, minha mãe me levava junto com ela para os encontros da organização. Tinham outras crianças da minha idade lá — crianças cujos pais tinham pego a doença. Eu lembro que, enquanto os adultos estavam no encontro, as crianças iam todas se juntar, fazer algumas cestas e jogar Banco Imobiliário ou UNO juntos.

No momento, nós estávamos apenas nos divertindo, mas olhando para trás eu sou muito agradecido pelo tempo que eu pude gastar brincando com crianças que estavam passando por tempos realmente difíceis. Dessa experiência eu aprendi que existem muitas formas de ter um impacto e a maioria delas não exige muito de você. Dar de volta pode ser tão simples quanto simplesmente passar tempo com alguém, ajudar a tirar a mente deles de qualquer coisa que podem estar lidando. E eu também aprendi que qualquer esforço que você coloca em uma causa irá eventualmente voltar para você — de formas que você nunca poderia imaginar.

Quando a minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama na metade dos anos 90, ela já havia ajudado a começar uma fundação chamada African American Breast Cancer Alliance (Aliança de Câncer de Mama Afro-americana), a qual ajuda pessoas negras afetadas ela doença. Durante a primeira luta contra o câncer da minha mãe, ela pode utilizar os mesmos serviços que, durante anos, ajudou a tornar disponíveis para outras mulheres. Entretanto, dessa vez, em vez de ajudar os outros em seus momentos de necessidade, existiam pessoas lá para ajudar a minha mãe durante o dela.

O que exatamente significar “doar” para uma organização sem fins lucrativos ou caridade? Claro, você pode enviar um cheque pelos correios ou fazer uma doação online. Você também pode dar eventos para arrecadar dinheiro para eles. Mas, na minha experiência, nada significa tanto quanto realmente interagir com as pessoas que essas organizações ajudam e servi-las.

Deixe-me dar um exemplo.

Se lembra da organização sem fins lucrativos que meus vizinhos estavam envolvidos, aquela que ajudava pessoas de todo o mundo com aparelhos auditivos? Bom, após eu ter aprendido sobre o que meus vizinhos estavam fazendo, eles me convidaram para ir com eles para a Índia. Em 2008, nós viajamos para Nova Delhi e, então, Calcutá, assim como para Mumbai, Ahmedabad e Suhura, colocando diversos aparelhos auditivos em cada parada ao longo do caminho. No primeiro dia em Nova Delhi, nós distribuídos aparelhos auditivos para 1.200 pessoas.

Eu não trocaria ver a felicidade nos rostos daquelas crianças por nada no mundo.

O que realmente me atingiu mais forte foi ver as crianças que vieram até nós — crianças pequenas que tinham problemas auditivos por todas as suas vidas — e assistir conforme eles tinham seus aparelhos auditivos colocados. Quando o dispositivo foi ligado pela primeira vez, seus olhos brilhavam. Todo um novo mundo foi apresentado a eles naquele momento, um mundo completo com mais textura. Eles estavam experimentando uma sensação que eu nunca havia parado para prestar atenção por toda a minha vida e isso deixou um impacto em mim para sempre. Eu não trocaria ver a felicidade nos rostos daquelas crianças por nada no mundo.

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Uma das minhas experiências favoritas foi quando eu viajei para Etiópia com Anquan Boldin em 2012 e trabalhei em projetos diferentes lá, incluindo plantar árvores e fornecer vacas para famílias. Enquanto nós estávamos lá, partes do país estavam sofrendo com uma seca grave, então nós também trabalhamos em alguns projetos de irrigação.

Durante a viagem, eu conheci um homem que tinha 12 filhos. Ele foi um fazendeiro por toda a vida, mas sua colheita naquele ano não foi o suficiente para sustentar sua família grande. Ele tomou a decisão de enviar três ou quatro dos seus filhos — aqueles que ele achou que eram os mais fortes mental e fisicamente — para a cidade de Addis Ababa. Ele não tinha os recursos para fornecer a subsistência para todos os seus 12 filhos, então, a melhor opção para ele era enviar alguns deles para longe para cuidarem de si próprios.

A vida não é sobre a quantidade de dinheiro que você tem ou que coisas legais você possui.

O que foi tão maravilhoso quanto penoso foi que essas crianças não se sentiam ressentidas em relação a seu pai. Elas entendiam sua situação e que ele tinha sido forçado a fazer algo drástico para o bem de toda a família.

As crianças abordavam sua situação com grande coragem, mas você pode imaginar o quão perturbado o pai delas estava. Era tão triste para eu ver — especialmente uma vez que eu também sou um pai. Não consigo imaginar ter que tomar uma decisão como essa pelos meus filhos. A verdade é que as famílias ao redor do mundo são forçadas a tomar decisões como essas todo o tempo.

Nós com certeza tempos nossas questões aqui na América, mas não se engane: as pessoas em outros países estão sofrendo de formas que a maioria de nós nunca poderia imaginar. É importante lembrar disso enquanto nós encaramos nossos próprios problemas.

Manter uma perspectiva como essa é uma parte chave da vida e é algo que eu acho que atletas profissionais precisam fazer ainda mais

Eles têm a oportunidade de jogar frente a dezenas de milhares de pessoas. Eles são pagos milhões de dólares e ouvem constantemente o quão ótimos são. Como um atleta profissional, eu sei que é fácil se perder no nosso próprio sucesso e nas coisas materiais que estão presentes junto com ele.

Mas a vida não é sobre a quantidade de dinheiro que você tem ou que coisas legais você possui. Todas essas coisas são temporárias. A única coisa que realmente importa é o tipo de pessoa que você é e o bem que você pode oferecer às outras pessoas enquanto você está nesse planeta.

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Um dos meus objetivos é espalhar essa mensagem, mesmo que ela apenas toque uma pessoa.

O que tem sido bastante legal recentemente é que eu tenho podido compartilhar a importância de dar de volta com os meus próprios filhos conforme eles crescem — bem como meus avós fizeram com a minha mãe a minha mãe fez comigo.

Alguns anos atrás, perto do Natal, eu tinha planejado ir para um dos abrigos de St. Vincent de Paul em Phoenix para servir café da manhã para as pessoas que vivem nas ruas. Eu já havia feito isso antes, mas naquele ano em particular eu decidi levar meu filho mais velho comigo para que ele pudesse ter essa experiência.

Na manhã que nós deveríamos ir para o centro, eu estava dormindo quando o meu filho entrou no meu quarto às 6 da manhã para me acordar.

“Pai, nós ainda vamos para o centro para alimentar as pessoas que vivem nas ruas?”

Você poderia pensar que uma criança pequena não estaria interessada em — ou até mesmo hesitante para interagir com — uma reunião de estranhos, ainda mais para conhecer uma pessoa que vive nas ruas. Mas, cara, ele estava curtindo.

Quando nós chegamos ao abrigo, ele estava servindo pratos e pegando bandejas, desejando feliz natal e boas festas para as pessoas. Ele estava tão motivado em ajudar aquelas pessoas, embora nunca tivesse as conhecido.

Vê-lo naquele momento trouxe lágrimas aos meus olhos. Eu não poderia ter sentido mais orgulho dele. E eu sabia que, ao vê-lo lá de cima, minha mãe e meus avós estavam muito orgulhosos também.

Fonte: The Players Tribune