Alex Smith

Contextualizando:

No dia 18 de Novembro de 2018, Washington Redskins e Houston Texans se enfrentaram no FEDEX Field em Landover-MD pela semana 11 da temporada regular da NFL. Aproximadamente na metade do terceiro quarto, o quarterback dos Redskins, Alex Smith, foi sackado na linha de 40 jardas no campo de ataque pelo safety Kareem Jackson e pelo Edge rusher J.J. Watt. Durante o sack o QB sofreu fratura exposta em dois ossos localizados na parte mais baixa da perna, a tíbia e a fíbula.

Alex Smith foi levado imediatamente para o Prince George’s Hospital Center, um hospital da Universidade de Maryland, onde recebeu todo o procedimento operatório. De acordo com os reports da NFL Network, entre os dias 19 de Novembro e 11 de Dezembro, o jogador passou por um total de seis cirurgias. As primeiras se referiam à limpeza e tratamento com antibióticos dos tecidos que foram expostos devido ao rompimento da pele na fratura exposta. Em seguida, foi feita a reparação da fratura, implantando uma placa metálica para religar os ossos e favorecer a regeneração óssea. Entretanto, o tratamento antibacteriano não foi eficiente e uma infecção bacteriana acometeu os tecidos entorno da região fraturada. Por consequência, novas cirurgias foram necessárias, para retirar a placa metálica, para remover o tecido infectado e tratar a contaminação, e posteriormente reimplantar a placa metálica nos ossos. Consequentemente, o tempo de internação do jogador no hospital foi bem maior que o normal para um caso de fratura exposta.

 

trajeto entre o Fedex Field e o Prince George1s Hospital
Figura 1: Trajeto (em azul, aproximadamente 7,25 Km), entre o Fedex Field e o Prince George’s Hospital, para onde Alex Smith foi levado depois de fraturar a perna.

O Prince George’s Hospital Center tem um histórico de contaminação bacteriana. Em Agosto de 2016, a UTI neonatal ficou fechada por três meses devido a uma contaminação nas tubulações de água do hospital por bactérias do gênero Pseudomonas, que em geral não costumam causar grandes complicações em adultos, mas podem matar em caso de contaminação em recém-nascidos. Filtros antibacterianos foram instalados nos ductos de água do hospital para impedir novas contaminações, que ressurgiram em Novembro daquele mesmo ano. Apesar desse histórico, a infecção bacteriana de Alex Smith muito provavelmente não está ligada a isso, mas sim à exposição bacteriana da fratura exposta.

Prince George`s Hospital
Figura 2: Faixada do Prince George’s Hospital Center, vinculado à Universidade de Maryland. A instituição de saúde possui um histórico recente de contaminações bacterianas que ganharam destaque no noticiário local.

A questão X aqui é: Por que o tratamento antibacteriano da fratura exposta às bactérias do ambiente (sujeira) não foi eficiente?

Para responder essa pergunta precisamos esclarecer alguns conceitos de bacteriologia, ramo das ciências biológicas e médicas que estuda bactérias.

Os antibióticos foram desenvolvidos a partir do inicio do século XX, principalmente com os experimentos de Alexander Fleming com fungos do gênero Penicilium que inibiam o crescimento de bactérias, surgindo a partir dessa observação o primeiro antibiótico, a penicilina. Começava uma grande corrida química e farmacêutica para desenvolver novos antibióticos, a fim de combater todos os tipos de bactérias causadoras de doenças. Isso favoreceu a erradicação ou controle de muitas doenças até então mortais como tuberculose, hanseníase, tétano e outras, revolucionando a medicina e favorecendo o aumento da expectativa de vida.

Podemos classificar os antibióticos usando diversos critérios, um dos mais importantes é a especificidade, que está relacionado à capacidade do antibiótico em combater tipos de bactérias. Quanto menor a especificidade do antibiótico, maior é o número de tipos de bactérias que ele é capaz de combater, quanto maior a especificidade, menor é o número de tipos de bactérias que ele é capaz de combater. Ainda hoje, existem poucos antibióticos com alta especificidade, a maioria é de baixa especificidade, mas podem combater variedades distintas de bactérias. Por exemplo, um antibiótico X pode matar as bactérias A, B e C, outro antibiótico Y pode matar as bactérias B, C e D, ou seja, X e Y podem ser considerados teoricamente antibióticos de baixa especificidade, mas atuam sobre tipos de bactérias diferentes, ainda que algumas sejam comuns (B e C) aos dois antibióticos.

Espectro de especificidade de ação bacteriana para alguns antibióticos
Figura 3: Espectro de especificidade de ação bacteriana para alguns antibióticos: Nomes dos antibióticos na parte superior do esquema. Na lateral à esquerda os grupos bacterianos sobre os quais se testaram o efeito dos antibióticos. Quadrados em branco indicam boa atividade antibiótica. Quadrados cinza indicam atividade média e os quadrados pretos indicam baixa ou nenhuma atividade.

Por outro lado, podemos também classificar as próprias bactérias quanto às suas características estruturais para determinar o melhor antibiótico para combatê-las. As bactérias são organismos unicelulares (formados por uma única célula), procariotos, ou seja, não possuem organelas celulares membranosas, como mitocôndrias, retículo endoplasmático, envoltório nuclear e etc. A membrana celular bacteriana é envolvida externamente por uma parede celular, composta de proteoglicanas, um polímero de proteínas e açucares que conferem uma malha protetora rígida para a bactéria. A composição química (principalmente dos açucares) da parede celular varia de espécie para espécie, e de um modo geral classifica-se dois grupos de bactérias quanto ao tipo de parede celular: Bactérias gram positivas possuem parede mais espessa, enquanto as bactérias gram negativas possuem parede mais fina.

A partir dessa classificação dos antibióticos e da estrutura bacteriana, podemos discutir o conceito de resistência bacteriana. Esse é um termo muito comum na mídia atual principalmente no noticiário de saúde, mas nem sempre com o esclarecimento adequado.
O mecanismo de ação dos antibióticos geralmente envolve inativação de alguma enzima fundamental para o ciclo de vida, provocando a morte das bactérias. Quando o antibiótico é administrado ele age sobre um conjunto de bactérias (milhares a milhões) que estão causando a doença, matando essa população bacteriana com o tempo de tratamento do antibiótico. Quando se usa antibióticos de forma errada, seja por automedicação (sem prescrição médica) ou por tempo inferior à recomendação médica, existe o risco de matar somente as bactérias mais sensíveis ao antibiótico, selecionando as bactérias que são naturalmente mais resistentes à ação do medicamento (resistência natural).

Os principais modos de ação de antibióticos sobre as bactérias
Figura 4: Os principais modos de ação de antibióticos sobre as bactérias: Envolvem danos de membrana, inibição de síntese de DNA, inibição de processos metabólicos. Todos esses envolvem de forma resumida inibição de enzimas envolvidas em funções celulares.

 

A resistência bacteriana em nível molecular equivale basicamente em três mecanismos: 1) Ação de complexos proteicos presentes membrana bacteriana capazes de realizar efluxo (fluxo para fora da celular) do antibiótico. 2) Ação de enzimas citoplasmáticas que degradam quimicamente o antibiótico. 3) Alteração da permeabilidade da membrana dificultando a entrada dos antibióticos. As bactérias resistentes naturalmente podem não ser “imunes” à ação de certo medicamento, pode ser apenas uma questão de tempo de tratamento, pois essa resistência pode não ser tão eficiente a ponto de evitar a morte da bactéria que não resiste com a persistência do tratamento.

As bactérias podem melhorar sua eficiência de resistência através de mutações adquiridas que favoreçam algum dos mecanismos moleculares de resistência citados. Tais mutações podem acontecer em situações de estresse ambiental para as bactérias, como em caso de exposição a um agente tóxico como os antibióticos. Vamos exemplificar: Se uma mutação que ocorre no gene de uma enzima envolvido na degradação do antibiótico, pode tornar a eficiência dessa degradação superior à da enzima sem mutação.

Estrutura celular bacteriana e os mecanismos de resistência bacteriana adquiridos por mutações
Figura 5: Estrutura celular bacteriana e os mecanismos de resistência bacteriana adquiridos por mutações: ATM são as moléculas de antibiótico. Todos os mecanismos de resistência envolvem degradação do antibiótico e impedir a entrada ou permanência do antibiótico no interior da célula bacteriana.

Então, uma bactéria que foi selecionada naturalmente durante um tratamento com antibiótico por tempo inapropriado ou com antibiótico indevido, pode adquirir mais resistência através de mutações e se tornar imune à ação daquele antibiótico utilizado. Logo, é necessário, utilizar outro antibiótico, que se for usado indevidamente também, repete-se o ciclo, e a bactéria se torna resistente a mais um antibiótico. No fim do processo, cria-se uma superbactéria, aquela que é resistente à maioria dos antibióticos e consequentemente pode gerar infecções mortais.

processo da resistência bacteriana
Figura 6: Resumo do processo da resistência bacteriana: O uso inadequado de antibióticos seleciona bactérias naturalmente resistentes. Essas aperfeiçoam a resistência através de mutações que conferem imunidade aos antibióticos através de melhor eficiência de mecanismos moleculares de inativação do medicamento. Posteriormente essas bactérias resistentes causam o agravamento da infecção.

O que resistência bacteriana tem a ver com o fã de NFL?

Vivemos na era da globalização desde a revolução tecnológica do inicio do século XX que encurtou distâncias através de meios de transportes e comunicações mais eficientes, e consequentemente favoreceu o fluxo de pessoas, de produtos e informação entre regiões distantes do mundo. Logo, a difusão do uso de antibióticos alcançou nível global, da forma certa e também da forma indevida. Assim, uma pessoa pode usar antibiótico sem prescrição médica em um país, desenvolver bactérias resistentes e transportá-las para outro país, onde essa bactéria pode se espalhar naquela região e tornar ineficaz o uso de algum antibiótico. Esse processo numa escala global de fluxo de pessoas, incluindo os fãs de NFL, potencializa o processo de resistência bacteriana a antibióticos.

Panorama mundial de mortes por resistência bacteriana (RAM) até 2050
Figura 7: Panorama mundial de mortes por resistência bacteriana (RAM) até 2050: Os números devem superar os números de morte por câncer (cancro é o termo para câncer no português europeu) seguindo o ritmo atual.

Nesse contexto, você como fã de NFL pode sim colaborar cientificamente para uma melhor recuperação de jogadores operados. Ao evitar usar antibióticos sem prescrição médica e ao usá-los seguir corretamente o tempo de tratamento, isso colabora para a prevenção de desenvolvimento de novas bactérias resistentes a antibióticos. Consequentemente, não haverá distribuição de bactérias resistentes para os Estados Unidos durantes suas viagens para esse país ou ainda em contato com norte americanos no Brasil, com outros brasileiros que podem viajar aos USA e com outros estrangeiros que podem eventualmente circular pela América do norte. Sabendo que o futebol americano é um esporte de muita intensidade física, a existência de lesões com necessidade de cirurgia para reparação é inevitável, e em todo procedimento cirúrgico existe possibilidade de infecção bacteriana, uma vez que se expõem os tecidos ao ambiente externo. Os tecidos são tratados com antibióticos no durante e pós-operatório para prevenir infecções, mas no caso de Alex Smith, uma fratura exposta, a limpeza e tratamento dos tecidos com antibióticos não foram o bastante para garantir que ele não tivesse uma infecção. Não poderemos saber se a causa da infecção de Alex Smith foi um procedimento de limpeza mal feito ou se ele adquiriu bactérias resistentes aos antibióticos no hospital. O certo é que o processo de uso indiscriminado de antibióticos, em conjunto com a intensificação da globalização podem sim ter colaborado para a infecção adquirida pelo jogador. Logo, fã da NFL, colabore para a saúde dos seus jogadores favoritos, só tome antibióticos sob prescrição médica. Evite a automedicação.

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