Ah…o Browns e sua vida recheada de tragédias recentes. O time – um dos mais tradicionais da NFL – vive uma era de vexames e é constantemente alvo de piadas. Mas como pode numa liga onde os times tem basicamente as mesmas condições de trabalho e finanças para montar seus elencos, uns se destacarem o tempo todo e outros estarem praticamente a vida inteira beirando o fundo do poço?

Gestão. O Cleveland Browns teve recentemente uma história de sucesso, infelizmente ela era ficção do filme Draft Day (A Grande Escolha), com Kevin Costner. Trocadilhos a parte (o filme é muito bom, diga-se de passagem), para quem curte a competitividade do esporte, ver certos times sempre na parte inferior da classificação acaba sendo frustrante.

Não vamos nos atentar no passado pré-Ravens do Browns. Só para dar uma relembrada, em 1995 os donos do Cleveland Browns, após desentendimento com a prefeitura da cidade (leia-se: “O Cleveland Indians ganhou um novo estádio e o Browns não”) decidiram levar o time embora, mais precisamente para Baltimore. Porém, a cidade ficou com o nome e ali nascia o Baltimore Ravens.

Quando retornou para a liga em 1999, o Browns parecia estar faminto por resultados, e desde então vem buscando atletas e técnicos que possam dar resultados imediatos. Talvez por isso o time tenha tomado tanto na cabeça. Só para se ter uma ideia, foram 24 quarterbacks que iniciaram pelo menos uma partida como titular desde então. Nesse período, o time só chegou aos playoffs em 2002. Para se ter uma noção do tamanho da zica do time, o Browns ainda ajudou um de seus maiores rivais a criar uma tradição. No único jogo de pós-temporada desde 1999, o Browns enfrentava o Steelers no Heinz Field, em partida válida pelo Wild Card da AFC, e ganhava o jogo no terceiro quarto por 17 a 7. Com a torcida do Steelers cabisbaixa, o VJ do estádio colocou a música Renegade, da banda de rock Styx no telão e o time da casa acabou acordando. O Browns ainda conseguiu mais um touchdown no início do último quarto e levou a vantagem para 24 a 7, porém com um apagão impressionante, o time de Cleveland permitiu a virada dos donos da casa e perderam o jogo por 36 a 33. Desde então o Steelers costuma colocar vídeo clipes ao som dessa música, sempre no terceiro quarto, enquanto o Browns não sabe mais o que é jogar um jogo de playoffs.

Cleveland Browns - A Fábrica de Tristeza

Cleveland Browns – A Fábrica de Tristeza

Desde 1999 o time também já contou com 9 técnicos diferentes – incluindo o atual – e detém um pífio recorde de 87 vitórias e 185 derrotas. Só para título de comparação, na história da franquia são 461 vitórias e 451 derrotas, o que é bom, considerando o equilíbrio e rotatividade da liga.

Pois bem, após escolhas bisonhas – para não dizer outras coisas – nos últimos Drafts, o Browns parece estar encontrando uma filosofia diferente para tentar retomar as campanhas positivas, o que era mais comum antes de 1999. A contratação de Hue Jackson talvez tenha sido o principal acerto do Browns em muitos anos e algumas coisas já começaram a acontecer. Apesar de pessoalmente não ter gostado do Draft do time em 2016, já sob o comando do novo head coach, a filosofia imediatista do time parece ter sido desintegrada com a chegada do novo comandante. O Cleveland buscava o sucesso imediato desde que retornou à NFL, e obviamente isso não deu certo (não vamos entrar nos detalhes, certo Johnny?). Com a chegada de Hue Jackson e algumas movimentações realizadas nessa offseason, eu pergunto: Será que a eterna reconstrução está chegando ao fim?

Ao que parece, sim. Essa mentalidade de pensar no longo prazo, mesmo que o time ainda esteja na lama, me faz acreditar que estão finalmente buscando algo além de não dar tantos vexames numa única temporada. Não adianta o torcedor de Cleveland achar que tudo vai se resolver em 2016 ou até mesmo em 2017. Mas se continuar pensando verdadeiramente numa reconstrução, com uma boa gestão fora de campo e bons líderes dentro dele, o time pode voltar a sonhar a brigar dentro da divisão, para posteriormente buscar algo mais adiante.

Esse ano trouxeram o QB Robert Griffin III, que será o titular do time já na semana 1 contra o Philadelphia Eagles, trocaram o LB Barkevious Mingo para o New England Patriots, o ótimo punter Andy Lee para o Carolina Panthers e mais recentemente o CB Justin Gilbert para o rival Pittsburgh Steelers. Todas essas trocas renderem ao time de Cleveland escolhas nos próximos Drafts. Além disso tudo, o wide receiver Josh Gordon está liberado para voltara a jogar, mas ainda precisa cumprir 4 jogos de suspensão.

Eu particularmente torço muito pelo sucesso de RGIII, não acho que um QB esquece como joga futebol americano, e se Josh Gordon continuar em Cleveland (há times interessados), o futuro pode ser muito menos nebuloso na cidade do que o passado recente. Para um time que teve discutivelmente o melhor running back que já correu nos gramados da NFL (Jim Brown) é possível sentir a dor que os cidadãos de Cleveland sentem. Se não fosse o Cavaliers ganhar o inédito título da NBA, a cidade ainda estaria em jejum de títulos desde o próprio Browns em 1964.