SANTA CLARA, Calif. — Um vestiário de futebol profissional após o jogo é uma caverna primitiva. Homens fortes e machucados se vestem e movem devagar, seus corpos perdidos no meio de dor. Eu observei um homem curiosamente entusiasmado, o linebacker do São Francisco 49ers Eli Harold, e fui até ele para ouvir o que tinha para dizer.

Seu time havia acabado de registrar uma vitória dominante de 28-0 no Monday Night sobre o Los Angeles Rams, em um jogo que foi tão entediante quanto uma lava-louça. Mas ele falou, ao invés de ouvir, sobre a ESPN semana passada, uma vez que Trent Dilfer, um falador que é um quarterback aposentado, opinou que Colin Kaepernick, o quarterback reserva do 49ers, deveria permanecer quieto e parar de se ajoelhar durante o hino nacional para protestar contra a injustiça racial e a brutalidade policial. Tais ações, disse Dilfer, ameaçavam dividir o 49ers.

Harold balançou sua cabeça em descrença. Mais cedo, durante o hino, Harold e outro parceiro de equipe, Antoine Bethea, levantaram punhos cerrados em suporte a Kaepernick. “O comentário de Dilfer me levou ao meu limite”, disse Harold. “Antes de tudo, como você sabe?”

“Se um cara quer levantar e acreditar em algo”, ele adicionou, “você não deveria bombardear e falar mal dele… e dizer que ele se colocou acima do time quando essa não foi a questão”.

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Eu havia pousado na Área da Baía horas antes desse jogo, curioso para ouvir o que os fãs do 49ers pensavam sobre o Kaepernick, um filho que foi favorecido no passado cujas habilidades podem estar desgastadas, mas cuja voz política está encontrando seu caminho.

Suas respostas continham um tumulto de raiva e alegria, e eram lotadas de ambivalência. Mas foi intrigante estar naquele vestiário e ouvir conforme homens jovens, quase sempre celebrados por sua habilidade para conduzir feitos de excelência em brutalidade, procuravam pelas palavras para expressar sua consciência política nascente.

No ano passado, as pessoas em Nova Iorque tiveram a chance de ouvir e assistir conforme Carmelo Anthony, uma estrela do basquete, chegou na meia-idade, abraçou os problemas da sua cidade ferida, Baltimore, e a batalha pelo controle de armas. Aqui em Santa Clara, Kaepernick foi submetido a uma metamorfose semelhante, falando e doando centenas de milhares de dólares para caridade.

Ele saiu do banho na noite de segunda e colocou uma camisa sobre seu torso flexível e tatuado. Ele ficou no vestiário, seu cabelo em trancinhas arrumadas, conforme os repórteres cercavam ele, um arbusto com espinhos enfurecido de microfones e câmeras e gravadores. Calmamente, ele respondeu pergunta após pergunta.

“Você está orgulhoso do seu papel em movimentar jogadores por toda a liga — diversos jogadores no domingo se ajoelharam ou levantaram seus punhos durante o hino— para que tenham um papel para protestar contra a brutalidade da polícia?”

Ele balançou sua cabeça. Ele é um emigrante recente nessa terra de ativismo político e se recusa a tomar esse posto. “Não, não. Esse movimento não foi por mim”, disse. “Conforme eu pesquisei sobre essas coisas, conforme eu vi mais e mais, não está certo”.

Ele falou sobre mídias sociais e seu imediatismo e como isso coloca tantas mortes de pessoas negras nas mãos da polícia de forma tão insistente bem na sua frente. “Você vê as coisas instantaneamente, dia após dia, e é difícil”, ele nos disse. “Para mim, eu não conseguiria ver outra hashtag Sandra Bland, hashtag Tamir Rice, hashtag Walter Scott”.

Seus olhos estreitaram. “Em que ponto que nós começamos a tomar alguma medida?”.

A pergunta de Kaepernick chama atenção dos fãs do time tanto quanto de seus jogadores. A reação deles a Kaep trouxe junto, normalmente, falar de raças incompreensíveis.

Fãs brancos falaram, normalmente com uma empatia genuína, sobre o direito que Colin tem para falar. Mas poucos aprovaram suas ações. Eles falaram sobre policiais que eram amigos, ou parentes no poder militar, ou eles falaram que se simpatizavam com os mesmos. Cody e Shiloh Oden, dois irmãos de 30 e poucos anos que vestiam camisas do Jerry Rice, vieram de Nevada, onde Kaepernick teve uma carreira universitária celebrada.

“É complicado, nós o amávamos”, disse Cody. “Eu reconheço muito que ele colocou seu próprio dinheiro, talvez um milhão de dólares, em sua causa. Mas o hino, não é o lugar correto para usar sua voz”.

Diversos fãs brancos perguntaram se eu percebia que Kaepernick, que é birracial, foi criado por pais brancos que adotaram ele. Quando eu perguntei o porquê de isso ser significativo, nossa conversa foi para caminhos diferentes. A suposição deles parecia ser que se ele foi criado por brancos, ele deve saber que nós temos boas intenções.

Eu apresentei a pergunta de Kaepernick para dois homens negros. Eles soaram um pouco desconfortáveis com o ativismo de Colin; eles tinham parentes e amigos no poder militar. Mas eles não tinham dúvidas sobre o direito dele, e mesmo sobre a necessidade, de falar. “As pessoas dizem que ele está desrespeitando os soldados”, disse Dominic Sims. “Mas ao falar ele está fazendo o que aqueles soldados lutaram para proteger”.

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Sentar, ou ajoelhar, qualquer que seja o caso, durante o hino nacional é um meio de protesto honrado pelo momento em que se encontra.

Muito tempo atrás, como um estudante de ensino médio, durante os últimos anos da Guerra do Vietnã, eu permaneci sentado durante o hino no Estádio de Shea e, algumas vezes, fãs insatisfeitos me deram um banho de cerveja.

Donald Trump, o candidato presidencial Republicano, foi um homem nascido em um conforto fabuloso; como um jovem príncipe ele tomou conta do império imobiliário de seu pai, o qual foi acusado de modo confiável de discriminar potenciais moradores negros.

Trump deu recentemente seu próprio banho de cerveja retórico em Kaepernick, dizendo que ele acha algo de “muito triste” sobre o protesto. “Eu acho que é uma grande falta de respeito e de agradecimento pelo nosso país e eu realmente acho que eles deveriam tentar outro país, ver se eles preferem”, disse Trump.

Esse é o estado da nossa terra em 2016. Talvez as palavras finais sobre ação e silêncio devam ser deixadas para o Kaepernick. Os repórteres perguntaram a ele o que achava da insistência do ex-quarterback Dilfer de que um quarterback reserva deveria permanecer nas sombras.

Kaepernick, que manteve um aspecto nobre durante a entrevista, disparou pela primeira vez.

“Esse é um dos comentários mais ridículos que eu já ouvi. Para mim, você está me dizendo que a minha posição e ficar quieto é mais importante do que as vidas das pessoas. Eu pediria para que ele tivesse conversas com as famílias das pessoas que foram assassinadas e ver se ele ainda se sente dessa forma”, disse.

Esse foi o som de um jovem que encontrou sua voz.

Fonte: New York Times

  • Leo Gomes Ninety-Nine

    Puta texto, bem legal mesmo, alguém tinha que protestar e se esse foi Kaep, que seja feito, tem que mexer no âmago dos racistas que usam a desculpa do hino para disfarçar o preconceito (algo que existe em todos os lugares, diga-se de passagem), respeito e apoio muito o Lula Molusco.