Gun Trey Right 3 Jet Chip Wasp Y Funnel” foram as exatas palavras do QB/gênio Patrick Mahomes no huddle. O futebol americano, em seus momentos decisivos, vive de fagulhas. Algo que impulsione uma virada, uma vitória. Tomar o lado certo ao se deparar com uma bifurcação. Essas fagulhas tendem a entrar para a história do esporte quando elas acontecem em momentos decisivos, em uma campanha de título. A conversão de 3a para 15 entre Mahomes e o WR Tyreek Hill no último Super Bowl foi uma dessas fagulhas.

 

As fagulhas sempre recebem nomes. The Catch para a conexão entre Joe Montana e Dwight Clarke na final da NFC de 1981, The Immaculate Reception para a recepção acidental de Franco Harris na final da AFC de 1972. Às vezes a fagulha recebe o nome da própria jogada, ou de uma contração dela, no caso “23 Jet Chip Wasp” para a bomba entre Mahomes e Hill.

 

Na história do Kansas City Chiefs, “Wasp” tem uma irmã mais velha. Nomeada da mesma forma. 65 Toss Power Trap. Foi a jogada que abriu caminho para o Super Bowl vencido pelos Chiefs 50 anos antes. Em 1969 a dinâmica de um jogo de futebol americano era diferente do que conhecemos. O jogo era predominantemente terrestre. Na década de 60 Sid Gillman, com o Los Angeles/San Diego Chargers (sei o que você está pensando: nem naquela época nosso FAVORITAÇO sabia bem em qual cidade ficava), havia acabado de revolucionar a bola oval propondo uma coleção de jogadas baseadas em passes longos. Os Chiefs de Hank Stram e Len Dawson passavam bem a bola, mas nada comparado ao jogo da atualidade. Os jogos eram muito mais amarrados. Uma espécie de Super Bowl LIII eterno.

 

No Super Bowl IV, disputado entre Chiefs e Vikings no estádio de Tulane em New Orleans, a Redwood Forest, como era conhecida a linha defensiva dos Chiefs naquela época punia severamente o QB Fran Tarkenton ou qualquer um que ousasse cruzar a linha de scrimmage. Os Purple People Eaters, a defesa de Minnesota, liderada pelo defensive tackle Alan Page, também resistia bravamente ao eficiente ataque de KC. Como não faz mal pra ninguém ter um hall of fame kicker no time, Jan Stenerud acertou três field goals e o placar estava em 9-0 nos minutos finais da primeira metade do jogo. No kick off seguinte ao terceiro FG o special teams de KC forçou um fumble recuperado na linha de 18 jardas. Três jogadas depois, o ataque dos Chiefs tinha a primeira descida para o gol.

 

Hank Stram era tão “macaco velho” quanto Leôncio. Percebeu uma tendência da defesa de Minnesota em super-povoar as laterais do campo assim que identificavam um toss, jogada de corrida em que o running back corre tipicamente por fora dos tackles. Os Chiefs já haviam perdido quatro boas oportunidades de touchdown na redzone. O jogo continuaria aberto caso perdessem mais uma. Veio a fagulha. “65 Toss Power Trap, meninos. Ela pode abrir um buraco para nós!”. Stram foi o primeiro técnico a usar um microfone no Super Bowl. As câmeras da NFL Films captaram com exclusividade a ordem dada ao wide receiver Gloster Richardson, que levou a chamada a Len Dawson, no huddle.

 

Diagrama da jogada 65 Toss Power Trap

Assim que a defesa dos Vikings percebeu o toss, correu toda em direção ao end esquerdo da linha, sem saber que a trajetória do RB Mike Garret não seria pela lateral, como em um toss típico. O right guard Mo Moorman, em um bloqueio do tipo trap, em que o lineman sai do seu lado da linha ofensiva para bloquear do outro lado, bateu a porta na cara de Alan Page, que achou ter caminho livre na direção do RB. O tight end Fred Arbanas selou o end esquerdo com dois bloqueios de maneira tão visceral, que seria capaz de deixar boquiabertos aqueles que acham (acham não, tem certeza) que George Kittle inventou o blocking TE. Garret teve o trabalho de desviar de um único defensor púrpura, que por sua vez passou absolutamente lotado. Lembram que o conceito adotado pelo Stram foi usar o overload da defesa contra eles mesmos?

 

Assim, o primeiro tempo do Super Bowl IV terminava 16-0 Chiefs. Voltemos ao famigerado Super Bowl LIII. Aquele em que não estivemos por um maldito offsides. Imagine que o Patriots abrisse 16-0 no intervalo. Com o que aquelas defesas jogavam, seria plausível que o Rams voltasse turbinado pra virar o jogo? Nem era provável que o Vikings virasse. O jogo continuou amarrado, KC administrou a vantagem e matou o jogo ainda no terceiro período com um TD do WR Otis Taylor. 23-7 e o Lombardi (que ainda não era Lombardi) foi para o Missouri (confere? MIS-SOU-RI) pela primeira vez.

 

A história das fagulhas da NFL é realmente muito interessante. Poderia ter citado várias outras no começo. O Music City Miracle que o quarentão aqui viu ao vivo em 1999, O Helmet Catch que destruiu uma temporada perfeita em 2007 (obrigado, Eli!), o Philly Special. Nada se compara, entretanto, a uma fagulha que te permite ver seu time vencer um Super Bowl. Obrigado a Stram, Dawson, Garret, Taylor pela oportunidade de conhecer a história. Obrigado a Mahomes, Reid, Bienemy, Hill pela oportunidade de vivenciá-la.

 

Texto de: Carlos Pankiewicz

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