Para quem acompanha a NFL no Brasil, certamente um dos maiores desejos que temos é o de assistir a um jogo no estádio. Estar no meio da multidão, vendo seu time de coração em campo e com aqueles caras que você sempre vê pela televisão a poucos metros de você. Ter a chance de, quem sabe, conseguir uma foto na entrada das delegações, poder ganhar a bola de um wide receiver que marcou um touchdown… Todos nós já quisemos essa sensação.

Outro sonho de muitos é o de jogar. Alguns, como eu e o Kodoji, se arriscam nas centenas de times amadores pelo Brasil. Sem estrutura, sem apoio, movidos apenas pelo amor ao esporte e a vontade de vencer. São treinos e mais treinos, dores, hematomas, estudo. Mas que atire a primeira pedra qual jogador nunca pensou: “Bem que eu poderia jogar na NFL…”.

No draft deste ano, pela primeira vez na história um jogador que não atuou por nenhuma escola ou universidade americana foi selecionado. Com a escolha de número 180, o Minnesota Vikings, draftou o wide reciever Moritz Boehringer, do Schwäbisch Hall Unicorns, time da Liga Alemã de Futebol Americano (GFL).

Moritz começou no esporte em 2013, em um time juvenil próximo de sua cidade natal, Stuttgart, chamado Crailsheim Titans. Em dois anos ele foi promovido para a principal equipe da região, o Unicorns. Em sua temporada de calouro, Boehringer recebeu 59 passes, para 1.232 jardas e 13 touchdowns. Os números impressionaram não só os alemães, mas também os olheiros da NFL ao redor do mundo. A performance assustadora do jovem prospecto lhe rendeu um convite para participar do Pro Day na Universidade Atlântica da Flórida, onde ele justificou a alcunha de “German Randy Moss” (o Randy Moss Alemão).

Com 1,93m de altura, 103 kg, correndo 40 jardas em 4.43 segundos, fazendo 17 repetições no supino (com 102 kg) e uma envergadura vertical de quase 1 metro, Moritz impressionou diversos times: Green Bay Packers, Arizona Cardinals, Atlanta Falcons, New England Patriots e claro, Minnesota Vikings. Os resultados desse Pro Day renderam comparações a Devin Funchess e Dorial Green-Beckham, recebedores selecionados na 2º rodada do draft 2015 por Carolina Panthers e Tennessee Titans, respectivamente.

Boehringer se mostrou um cara simples e pacato e vive em uma região calma da Alemanha, afastada de Berlim (cerca de 530 km), onde o esporte é uma das maiores atrações. A Mercedes-Benz Arena, um dos estádios mais modernos do mundo, casa do VfB Stuttgart, time que disputa a 1º divisão de futebol da Alemanha, é o ponto turístico mais conhecido da cidade. Além de torcedor do Stuttgart, Mo também torcia para um time da NFL. Um time que lhe remetia as origens do povo alemão. Um time de Vikings.

Jogar pelo time que você sempre admirou, viu e sentiu orgulho. Vestir o uniforme e estar lado a lado com todos os seus ídolos. Pisar no gramado do estádio que você sempre quis visitar, mas como um jogador. Quantas coisas não devem ter passado pela cabeça daquele jovem alemão, que já marcou história na NFL, sem nem mesmo ter jogado. Moritz Boehringer acreditou. Acreditou em seu potencial, treinou, se dedicou e lutou para chegar onde ele está hoje. Agora eu lhe pergunto, se ele conseguiu, o que nos impede?

O Brasil é um berço de atletas de ponta em diversas modalidades. Futebol, vôlei, basquete, tênis, atletismo, canoagem, judô, MMA, e claro, futebol americano. Cairo Santos é a prova de que os brasileiros podem chegar lá. O caminho é difícil, árduo, mas se Boehringer conseguiu ser selecionado mesmo jogando fora dos EUA, não duvido que daqui a alguns anos o Brasil possa ter seu primeiro jogador draftado na NFL. Acredite.